Amélia

“DANÇAMOS POR GOSTO, A ÚNICA RETRIBUIÇÃO É ESTAR EM PALCO”


Menina e moça eraAmélia Mendoza quando o gosto pela dança despontou. Uma prima
levou-a para Paris ainda jovem, onde cresceu como bailarina. Quando se lesionou decidiu
fazer uma pausa pelo Alentejo. Até hoje. Faz quarenta anos que Amélia vive por lá com a
sua família e as escolas de dança que fundou, nunca esquecendo os tempos em França.

Nascida em Madrid em finais dos anos 40, desde cedo Amélia percebeu a sua vocação. No
entanto, revela que pouco apoio teve quando decidiu ser bailarina profissionalmente: “o
meu pai nunca aceitou bem a ideia, a minha mãe não podia dizer o contrário embora
agora me apoie… eram outros tempos”. Dançou em várias academias por Espanha
enquanto “bailarina de carácter, dançava o que fosse preciso”, diz. A aproximação a
familiares em Portugal revelou-lhe uma oportunidade: “a minha prima Sónia fazia a sua vida em Paris e perguntou-me se não queria ir até lá tentar a sorte”. Com pouco mais de vinte anos e metro e meio de coragem, seguiu para França em busca da sua quimera.

Foi na capital francesa que se tornou realmente bailarina. Amélia dançou nas companhias de grandes nomes da dança (Jose Torres, Jose Lopez, Iberia e Maria Carmen Biel) e conheceu outras personalidades,revelando “já não me lembro bem, mas também não tínhamos tempo para nada, ensaiávamos todo o dia, vi Paris bem da primeira vez”. A vida na cidade “fervilhava de cultura, muito acontecia durante o dia”, conta Amélia. Deslumbrou-se “por tudo, o rio, les bouquinistes, mas sobretudo os doze ou treze bailados diferentes por dia”.

“Com Marianne Ivanoff, que era
grand sujet na Opera de Paris, desenvolvi o ballet clássico e cheguei a ser a sua assistente, quando ela precisava ajudava nas aulas, fui entrando no esquema dos erros e isso permitiu-me dar aulas até agora”.

Pouco depois, a vida de Amélia mudou. “Lesionei-me, precisava de descansar. Seriam seis
meses e decidi ir para Portugal. E assim fiquei no Alentejo, na casa de família. Fizeram-me
propostas para dar aulas aqui e foi muito interessante. Então, conheci o meu marido em
Évora, o meu filho aqui nasceu e um neto já cá está”.

Alimentou duas escolas com centenas de alunos, em Évora e Montemor. Já lá vão mais de trinta anos. Num espanhol tornado português pelo tempo conta que “este nunca foi o plano, nunca pensei ficar, enamorei-me estupidamente. Queria voltar para fazer um recital sobre dança espanhola como forma de dar a conhecer essa cultura… Mas fazia o espetáculo final de ano cá com os miúdos e pensava que seria o último, só que nunca foi”.

Um postal trazido de Paris há poucos verões convence-a de que ela é a professora de ballet
na fotografia e fica pensativa. Desde há muito não pensa como seria voltar à capital
francesa, “não sei o que faria, acho que não iria trabalhar nesta área, não se proporcionou
quando devia”.

Amélia lamenta que Portugal não seja “um país com trajetória na dança, temos bons
professores e bailarinos, mas não têm para onde ir… As pessoas gostam, é pena o Estado
não gostar”. Mesmo neste cenário, Amélia dá aulas todos os dias a dezenas de alunos,
alguns tão antigos quantos as escolas que fundou. Escolheu ensinar ballet por ser “uma arte
que pode chegar a todos, todos podem ver tudo… Para mim, é o máximo da beleza”.
Compara mesmo a dança clássica a “uma grande pintura de Velasquez, quando se vê o
Lago dos Cisnes é como um quadro”.

“Interessa mais a estética que a técnica, a
concentração, a disciplina e a graciosidade”

Fá-lo por gosto, não se imagina já de outra forma. Pelo Alentejo, muitos reconhecem o
seu nome. Ensina um pouco de tudo, “é importante cultivar o espírito”. Quer moldar corpos e mentes através de uma arte que nasceu consigo, que nunca será um emprego das 9 às 5, mas que manterá enquanto o tempo o permitir.


Joana