Fernando

O ARQUITETO QUE TROUXE A RUA PARA A FOTOGRAFIA


Nem sempre se pode dizer que se tem o emprego de sonho ou que se faz realmente o que
se gosta. Porém, Fernando Guerra assume-se como uma exceção à regra. Arquiteto por
profissão e fotógrafo por paixão, Fernando conseguiu aliar as duas coisas para fazer o que
faz há mais de quinze anos: fotografar obras arquitetónicas de forma singular pelo mundo,
espalhando o seu nome pelos cinco continentes.

Fernando Guerra nasceu em Lisboa, em 1970, e, aos vinte e quatro anos, licenciou-se em
Arquitetura. O gosto pela área foi-lhe transmitido pelo pai, Sérgio, também arquiteto,
tantos nas horas juntos no seu atelier como nas viagens de família. A paixão pela fotografia surgiu na adolescência, quando usava a câmara analógica na sua“fotografia de rua”.
Pedro Sales, que conheceu Fernando “no primeiro dia
de aulas na faculdade”, revela que, nos tempos de universidade, “as fotos que o Fernando capturava das maquetes fizeram história” e que “era difícil apanhá-lo sem uma máquina fotográfica na mão”.

Mas, em 1999, Fernando pôs de parte a arquitetura e transformou o passatempo
de juventude em profissão para a vida. Na época, num atelier de arquitetura
em Macau, e foi Sérgio Guerra, o irmão mais novo e também formado em arquitetura,
quem o desafiou a fazer trabalhos fotográficos para outros arquitetos. Fundaram o atelier FG+SG, que ainda hoje mantêm na Avenida de Roma, em Lisboa. A parceria entre irmãos, revela Sérgio, “ é uma relação normal de uma qualquer empresa familiar, existe uma maior união em prol dos objetivos comuns e trabalha-se todas horas do dia”.

O fotógrafo teve o privilégio de ser um dos primeiros a lançar a fotografia de arquitetura
no país, numa altura em que “ninguém queria fotografar arquitetura,
porque a forma tradicional era muito aborrecida”, revela Fernando. Além disso, também a
sua formação o beneficia: “os fotógrafos não sabem tanto de arquitetura como eu e eu sei
um bocadinho mais de fotografia do que os arquitetos”.

Por cá, João Tiago Aguiar é um dos nomes na arquitetura para quem Fernando trabalha. O fotógrafo estava no início da profissão quando se conheceram, “mas a qualidade do
trabalho não deixava margem para dúvidas”, diz o arquiteto. A fotografia de Fernando
“traz sempre qualquer coisa nova, consegue apanhar ângulos que à vista desarmada nem parecem estar lá”, afirma João Tiago.

É precisamente a visão singular de Fernando que destaca o seu trabalho:há mais do que a construção, “sejam as nuvens, seja o cão, interessa-me toda a vida em torno e dentro do edifício”, o seu trabalho “é uma desculpa incrível para fotografar pessoas”, diz Fernando.

Fotografar arquitetura, para Fernando, “é sobretudo um trabalho de paciência”. Permanecer no local e esperar pelo momento certo é o segredo para uma fotografia interessante de um edifício. Marco Pires, editor da FG+SG, diz que “a obstinação que o Fernando coloca em tudo o que faz marca a diferença”.

Muitas vezes,  repete a visita a edifícios que já fotografou. O que não repete, contudo, é o registo  fotográfico: “as árvores estão maiores, o edifício está diferente, as coisas mudaram e eu também mudei”. É praticamente impossível fazer duas fotografias iguais, ainda mais
quando se distanciam muito no tempo.

A adaptação é sempre necessária no mundo fotográfico, pois “cada sítio tem uma postura muito diferente”. Ao voltar a locais onde já esteve várias vezes relembra “pessoas que já foram clientes e que viraram amigos”.

Mas a vida itinerante é tão boa quanto má. Embora Fernando faça novos contactos e
divulgue o seu talento, revela que “viver entre aviões e hotéis é cansativo e solitário”. Os
amigos e a família ficam em terra, à espera de um reencontro. Entretanto, vão
comunicando por mensagens e vídeo chamadas, diz o pai.

Entre grandes nomes na arquitetura, já trabalhou com Siza Vieira, Carrilho da Graça, Isay
Weifeld ou Zaha Hadid. As suas fotografias fazem capa em revistas internacionais como
Wallpaper*, Dwell ou Domus. Com o crescente reconhecimento do trabalho
pelos quatro cantos, Marco conta que a maior recompensa para o grupo daFG+SG é ter “arquitetos e ateliers de topo que confiam em nós para documentar e
divulgar o seu trabalho”.

Para Fernando, o trabalho em fotografia “torna-nos bem humildes, é uma área que muda
todos os dias”. Nunca se chega realmente ao que se quer, “eu ainda estou a aquecer os motores”, conta Fernando. “É uma maratona grande, não são os cem metros”. Do arquiteto Siza Vieira guarda uma grande amizade, mas sobretudo um grande exemplo: “É um génio e é muito normal”.

Fernando diz que “na fotografia, é fácil ficar-se convencido de que se é o melhor”, mas um
ego iludido “é meio caminho andado para o falhanço”. Embora o seu trabalho seja internacionalmente reconhecido, Fernando não quer ser uma celebridade. Trabalhar tendo a fama como objetivo “é muito destrutivo, eu teria de destruir alguém”, mas o seu trabalho “fez-se sem se pensar em ir a Taiwan ou Nova Iorque”. Marco considera Fernando “um eterno insatisfeito que está constantemente a subir a parada e os objetivos,
encarando cada trabalho como se fosse o primeiro e o mais importante”.

Quando o hobby se torna profissão, Fernando tomou o gosto por
automóveis antigos, a “arranjá-los, comprá-los, vendê-los”. Quando tem tempo livre, dedica-o à sua coleção. Uma aquisição recente foi uma mota de 1924 que descobriu na feira da ladra: “Não tenho carta para a conduzir, pu-la em cima do aparador e acho que está maravilhoso”.

Não volta para a arquitetura como a conheceu há quinze anos atrás: “Estou tão bem aqui,
tenho trabalho, reconhecimento lá fora e cá dentro”, conta. Aos quarento e cinco anos,
admite ter um longo percurso pela frente, mas reconhece que “até agora, tem corrido benzinho”. O seu esforço valeu-lhe um lugar entre o grupo internacional “Explorers of Light” da empresa Canon. Publica regularmente os projetos online, em “Últimas Reportagens”. Férias para si são um conceito estranho, mas nas poucas horas vagas entre uma e outra viagem talvez seja visto a passear um dos seus carros de coleção, que tanto estima.

vou fazer isto até morrer, só
não sei se será no sofá ou a fotografar”.

Joana

(direitos da fotografia original Euromax, retirada de http://ultimasreportagens.com/)