Abstraccionismo viciante

Finalmente, consegui assistir ao documentário “The Reflektor Tapes”, realizado por Kahlil Joseph. Foi uma confusão, mas uma confusão com música e interesse.

Quando entrei na sala de cinema para assistir ao filme dos Arcade Fire, nem viv’alma se via. Dez minutos depois, a lotação deve ter ficado perto do 100%, o que me surpreendeu bastante – parece que não sou assim tão hipster, ora bolas.

O filme foca-se em todo o processo que envolveu a criação do quarto álbum, Reflektor, da banda indie (?) canadiana. Para além de filmagens exclusivas, foram também apresentadas outras músicas que não constam do álbum, lançado em finais de 2013. Sei que estas, entretanto, foram também lançadas numa edição limitada, parece-me que em cassete – lá vamos nós descobrir onde ficou aquele radiozeco da barbie que ninguém achou ter utilidade em 2003.

As imagens apresentadas vêm desde 2012, mas não são apresentadas de forma cronológica – nem era essa a finalidade, nem essa nem qualquer outra. Sem uma narrativa linear ou um propósito bem definido, o filme acaba por ser uma mistura de muita coisa (concertos, trabalho de estúdio, ritmos haitianos, Jamaica e o seu carnaval…) num tom bastante psicadélico – Kahlil sobrepõe imagens, uma bomba de cores alterna com uma visão de infravermelhos captada com uma câmara do exército, efeitos de VHS cortam a fita, se num momento se ouvem todos os instrumentos no outro há uma surdez que só deixa passar a respiração ou uma voz de fundo.

Ainda assim, não se perde o fio da meada: se, inicialmente, nos sentimos perante uma experiência de um primo que descobriu o mundo do vídeo a ver hits de 80’s no VH1, rapidamente nos habituamos à esquizofrenia imagética-sonora e ficamos apaixonados por Kahlil, Arcade Fire e toda a produção – se os Arcade Fire confiaram neste homem para documentar o seu trabalho, nós atiramo-nos de cabeça sem pensar duas vezes.

Com hora e meia, pelas vozes de Régine e Win (fundadores da banda) ficamos a conhecer melhor Reflektor: a inspiração, as viagens, as pessoas, as experiências, os concertos. Ficando até depois dos créditos, descobre-se uma entrevista exclusiva de curtos minutos que revela mais sobre Kahlil e sobre os seus processos meio loucos de filmagem.

Para fãs da banda canadiana ou para amantes de documentários musicais, não deixem passar “The Reflektor Tapes”. Fiquei com vontade de conhecer mais produções de Kahlil Joseph e, claro, de voltar a sentir aquele energia ao vivo, própria de Arcade Fire.


Joana