O Silêncio Necessário

Há quem diga que a solidão é uma bênção, e aos poucos vou percebendo como isso é verdade.

Aproveitei aqueles feriados a caminho do fim de semana para umas mini-férias (merecidas), estávamos ainda em abril. Como não é a regular época de pausa, estava sozinha e sozinha fui.

Três dias comigo mesma, longe da capital, com uma caixa de pizza do supermercado, algumas sandes e uma mochila às costas, lá me meti num autocarro a caminho de Óbidos.

Rapidamente percebi que estava confinada a duas ruas de artesanato, sem televisão nem internet no quarto e um movimento louco de visitantes durante quatro horas

“Que seca vais passar”, disseram-me inúmeras vezes, mas o que as pessoas esquecem é que há tantas coisas positivas a absorver de um retiro assim. Porque de facto ele foi pensado para ser isso mesmo, reaprender a lidar com a seca: não ter nada para fazer, relaxar sem horários, reduzir as preocupações e deixar ouvir o que estava a ser abafado por ruídos constantes, vindos de fora e de dentro.

A ideia de não ter nada para fazer parece assustadora num primeiro momento, mas para mim foi a melhor coisa que poderia ter acontecido naquela altura

Porque me obrigou a encontrar alternativas, mostrando-me como, na realidade, ainda sei lidar com o “nada” para fazer e consigo estar comigo mesma, apenas. E gosto disso. Parece-me que isto se pode tornar algo regular na minha vida e aconselho todos a fazerem o mesmo; porque às vezes sentimos um turbilhão em nós, na mente, na boca, no coração, e basta fazer este silêncio no momento para para acalmar tudo.

Li tanto naqueles três dias como em meses

Acabei por comprar mais livros para me ocupar e até terminei, numa livraria, as páginas que faltavam do Saramago que ficara em casa. As minhas refeições foram feitas em mais que dez minutos. Repeti croissants e chás e frutas ao pequeno almoço. Caminhei pelas muralhas ouvindo apenas pássaros e os pés que rolavam as pedras.

Vi o pôr do sol e absorvi paz. Sentei-me e lancei-me no silêncio. Falei apenas comigo, e ouvi-me. Descobri que por vezes somos os nossos melhores interlocutores – já temos respostas, mas há que encontrar silêncio para as ouvir.