Julho sem plástico ou (a incompreensão da sustentabilidade)

Este mês é conhecido por desafiar pessoas por todo o mundo a produzirem menos lixo, usando menos plástico. Mas que sustentabilidade é aquela em que levo um saco reutilizável para comprar detergentes tóxicos para o meio ambiente?

Pois bem: é o reflexo da mente adormecida e da fraca conexão de aprendizagens. Se há coisa que nunca esteve tanto na berra como agora – parece-me – são assuntos de caráter ambientalista, pela preocupação com o clima, a qualidade dos produtos que ingerimos, o ar que respiramos, as espécies que nos rodeiam. Um estudo indica-nos que a civilização como a conhecemos desaparecerá até 2050 se nada se fizer para reverter as alterações climáticas, e há já um grande número de pessoas que considera não ter filhos pelo receio da má qualidade de vida que esses possam sofrer.

Vamos aprendendo, por aí e à solta, que é preciso fechar a torneira ao lavar os dentes, andar mais de transportes público ao invés do carro pessoal, usar sacos reutilizáveis nas compras, comprar a granel com embalagens que temos em casa, etc.

Compreendemos o efeito dessas ações e escolhas isoladas, mas será que sabemos o que representam no seu todo? Estamos muito “pela rama” nestas matérias e é preciso (querer) entender a sustentabilidade de forma holística para avaliarmos cada escolha que fazemos, além do óbvio.

Claro que poupar água potável é bom e reduzir o uso e de plástico é ótimo, mas como pode isso ser coerente com o o uso de saquinhos individuais na secção das frutas?, ou com a corrida às promoções na Black Friday?

Não é coerente porque não se entende a mudança comportamental no seu todo e quais as variáveis que precisamos mudar – sobretudo a nível do consumismo.

  • Por que razão, por exemplo, compreendemos que reciclar o plástico é bom, mas não entendemos que o ideal era não o comprar em primeiro lugar?
  • Como posso usar um desodorizante artesanal, que não contém poluentes e até apoia um produtor local, mas se, por comprar esse, vou deitar para o lixo a aquele roll on que ainda estava a meio?
  • Se passo todo o ano a comprar mercearia a granel poupando nas embalagens desnecessárias, como posso entrar numa loja de roupa e levar tudo “e mais um par de botas” (pun intended)?

Eu própria estou (longe) nesta caminhada para a sustentabilidade, tentando em cada compra escolher o melhor e e em cada leitura e discussão aprender mais.

É certo que alguns produtos alternativos são *bastante* mais caros mas há outras soluções, até caseiras, pelas quais podemos optar – há DYI para tudo nesta vida e, com eles, descobri como fazer o meu desmaquilhante com misturas de óleos aromáticos, que coloco em paninhos reutilizáveis feitos a partir de uma toalha velha.

Não quero, de todo, parecer uma tirana contraditória da sustentabilidade. Como referi, há inúmeras escolhas que preciso mudar (e das quais não estou orgulhosa), mas compreendo que há incoerência, sei onde e porque tenho de mudar, aceito de forma flexível que é um processo de mudança interna, ao seu ritmo.

É pertinente começarmos a pensar por nós nestas matérias climáticas. Pequenos gestos fazem a diferença, mas fariam ainda mais se os compreendêssemos no seu conjunto e como se interligam.

A compreensão de hábitos dá sentido e propósito ao estilo de vida, não fazendo dele uma moda; a coerência de comportamentos será a única coisa que nos pode salvar.

*DISCLAIMER: Não tenho qualquer autoridade nestas matérias; trata-se de um desabafo de alguém que tenta compreender como impactar de forma positiva o ambiente onde vive.*