Leituras de setembro

O mês da rentrée, de recomeços e de novidades para muitos. Por aqui, é igual. As energias parecem redobrar-se, as ideias multiplicam-se e a vontade para concretizar nunca foi tanta.

O ritmo de leituras acompanhou esta fase e, curiosamente, li mais livros em setembro do que nas semanas de férias de verão…

Posto isto, aqui ficam as minhas críticas aos livros do mês passado – com o mínimo de spoilers possível e organizadas pelo ordem em que comecei a ler. Curiosamente, todas as leituras foram em inglês.

Partilhem comigo se já leram e o que vos trouxeram estas e outras leituras de setembro.

Eleanor Oliphant is Completely Fine

Gail Honeyman

⭐⭐⭐⭐⭐

Ver este livro na Bertrand

Sem dúvida, a leitura que mais me surpreendeu de forma positiva.

Com um passado reprimido mas omnipresente, Eleanor atravessa os seus dias sem grande entusiasmo pela vida num misto de estoicismo e falta de filtros sociais.

No seu apartamento mal arranjado, bebe vodka o fim de semana inteiro para aliviar a dor que é aguentar uma semana inteira – a que passou e a que aí vem. A mãe é um fantasma que paira nos seus dias e as memórias impedem Eleanor de avançar.

Sem amigos, sem ambições e sem smartphone.

Mas um novo colega de emprego vem revelar que há mais por baixo da sua carapaça dura e convicções esquisitas, desafiando-a pouco a pouco a abandonar a velha e desatualizada versão de si mesma.

Bom: narrativa surpreendente, com twists do início ao fim e nada previsível, mostrando facetas diversas do amor.

Mau: nada a apontar

Tradução: A Educação de Eleanor (esta tradução de título é um pouco… terrível e estraga a surpresa da leitura… Enfim)

The Peculiar Life of a Lonely Postman

Dénis Thériault

⭐⭐⭐⭐⭐

Ver este livro na Bertrand

Outro favorito do mês!

Narrativa curta na terceira pessoa que nos vicia em ciclos e no destino, mostrando como não lhe escapamos nem decidimos sobre eles.

Bilodo é um carteiro pacato, que pouco mais faz no seu dia que entregar cartas. O único ponto alto da sua vida é poder abrir as cartas que Ségolène, uma jovem da ilha de Gaudalupe por quem se apaixona, envia ao namorado e que contêm simplesmente haikus, uma antiga forma de poesia japonesa.

Até que surge a oportunidade perfeita de Bilodo entrar na vida da jovem. Claramente, não é nem a mais correta nem a mais ética, mas ainda assim é a única maneira de contactar com ela. O carteiro vê-se envolvido numa espiral lunática, onde o certo e o errado se confudem e nos confudem a nós.

Bom: livro curto e interessante, que nos embrenha numa relação caritcata e com a dose certa de descrição. Excelente mergulho na cultura e literatura japonesas.

Mau: nada a apontar

Original: Le Facteur Émotif

Tradução: A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário

Vox

Christina Dalcher

⭐⭐⭐

Ver este livro na Bertrand

No ano passado li Handmaid’s Tale (A História de uma Serva) e este foi um dos livros-sensação que veio no seguimento desse. A premissa e o contexto pareceram-me interessantes, novamente num estilo distópico.

No espaço de um ano, a sociedade norte-americana vê ascender ao poder um grupo religioso que subverteu décadas de luta pela liberdade e igualdade de género, impondo valores morais pervertidos e negando à mulher as conquistas até aqui alcançadas. Além de apenas poderem dizer 100 palavras por dia, contabilizadas numa espécie de pulseira de choques, as mulheres nesta sociedade são obrigadas a manter o papel de submissas ao homem, servindo-o e casando à força. Instauram-se valores antiquados, onde a homossexualidade é crime e se incentiva a formar famílias com somas avultadas.

A personagem principal, Jean, é uma ex-neurolinguista que vive neste controlo e angústia, também por ter uma filha mais nova que cresce nesta civilização distorcida. Por forças maiores, vê-se de volta ao trabalho ativo no que parece um projeto para curar um distúrbio de linguagem. A medo mas com sede de mudança, vai embrenhar-se na rede que lidera de forma autoritária o seu país e envolver-se em esquemas que nunca achou possíveis.

Bom: premissa interessante e estilo de escrita cativante

Mau: momentos pouco credíveis que descredibilizam as cenas; ficção ao estilo Hollywood, onde as cenas rápidas e intensas proliferam exageradamente, perdendo o sentido ou sentimento de associação com as personagens; apesar de bem escrita, a narrativa não oferece momentos ou pausas suficientes para refletir sobre o que está a ser tratado.