Leituras de janeiro

Começo o ano leve e fresca – ou não fosse o frio de janeiro penetrar ossos, gelando até a alma mais quente.

Gosto de terminar um ano com uma leitura que me inspire e, regra geral, só a concluo no início do ano seguinte.

Janeiro trouxe-me essa inspiração, marcou o meu “casar dos anos”, levou-me da palavra à ação e aqui estou com a crítica de xx livros lidos.

Memórias de Um Gato Viajante

Hiro Arikawa

⭐⭐⭐⭐⭐

Ver este livro na Betrand

Uma leitura deliciosa, memorável, emotiva e surpreendente. A começar pelo facto de, grande parte da história, ser narrada por um gato!

Acompanhamos a viagem de Satoru, um rapaz nos seus trinta e poucos anos, e Nana, o seu gato adulto resgatado da rua e de cauda torta em forma de oito (nana em japonês). Por motivos que descobrimos ao longo da narrativa, Satoru não pode manter Nana consigo e viaja pelo Japão em busca de uma nova casa para o seu adorado companheiro.

Pelo caminho continuam a criar e partilhar memórias a dois, enquanto Satoru visita amigos da infância e juventude que poderão tomar conta de Nana. Aqui se intercala a narrativa na terceira pessoa, onde ficamos a conhecer o passado em comum, as peripécias vividas e o futuro de cada personagem.

De leitura fluida e sempre surpreendente, a autora traz-nos uma narrativa onde nada conseguimos prever e que nos conta uma história de como duas vidas se cruzam e fundem tão profundamente. Uma verdadeira viagem entre amor e despedidas, amizade e crescimento, onde os animais conversam entre si e entendem os seus humanos.

Bom: tom de escrita bastante leve, não retirando o peso brutal de muitos momentos narrados; é impossível não parar de ler

Mau: nada a apontar

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Find me

André Aciman

⭐⭐⭐⭐

Ver este livro na Bertrand

A sequela de Call Me by Your Name vem, inevitavelmente, com expetativas bem altas. Acho que esta é uma daquelas histórias que ou se ama ou se detesta. Não há meios termos.

E Find Me vive também esse dualismo. Mas o que esperamos ou queremos de uma história pode ser altamente perigoso quando descobrimos o que o autor preparou. E muito se tem odiado esta continuação, talvez por não trazer o desfecho que tanto ansiamos entre as duas personagens, Elio e Oliver.

Curiosamente o que me agarrou em cada página pela semelhança com a realidade é exatamente o que traz tantas críticas negativas por parte de outros leitores – afirmando que a ficção é tanta que se torna desconfortável e irrealista. As conversas frontais, as emoções à flor da pele, as fantasias que nos envergonha partilhar, as dicotomias que nos dilaceram, o desejo de mergulhar no corpo nú do outro para lhe conhecer a alma, a telepatia entre amantes, a dor de sabermos que amamos mais do que nos amam, o alinhar do universo para nos trazer aquela pessoa, a sensação de familiaridade e os déjà vus desconcertantes. Aqui há muito pouco de ficção – e se nunca viveram nada disto, espero que a próxima vida seja mais generosa nesse sentido.

Nada podia ser igual a CMBYN. A verdade é que decorrem cerca de 20 anos desde o último encontro entre Elio e Oliver – tempo suficiente para tudo mudar, quase criando várias vidas e várias versões deles mesmos. Um aspeto interessante nesta continuação, para mim, é o destaque dado a outras personagens, que em três partes distintas nos narram e mostram como o que vivem jamais foi o que idealizaram e que há sempre espaço para mudar.

Vivemos na pele o paradoxo da relação que começou em Itália, tantos anos antes – uma separação inevitável mas difícil de aceitar. O querer ficar para sempre e o saber que jamais ia acontecer. O querer seguir em frente, décadas a fio, e o saber jamais se ultrapassará o que se sente, como se se ouvisse a voz do outro num murmúrio constante que nos chama e nos diz “encontra-me”.

E por fim esse reencontro tão aguardado. Mas temos duas pessoas que não são mais as mesmas, que não se conhecem mais naquele contexto marcado por décadas de ausência, de feridas emocionais, de deceções e de memórias. Saídos de um coma, é preciso perceberem quem são nesta relação, nova apesar de tudo.

De facto, não temos o foco num só par amoroso – como muitos desejaram. Temos, antes, várias versões do que pode ser amor em formas que nem sempre entendemos, porque nunca as vivemos ou porque contrariam séculos de construtos sociais. Se há algo a aprender com Find Me, é precisamente que não há uma só forma de amar.

Bom: a desconstrução de preconceitos sobre o que é ou deve ser o amor, através de histórias presentes e passadas das personagens.

Mau: algumas caraterísticas das personagens são bastante repetitivas, retirando diversidade ao background e tornando-os algo esterotipadas.

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Yoga Sutras of Patañjali

Patañjali, comentado por Sri Swami Satchinanda

⭐⭐⭐⭐⭐

Ver este livro na Bertrand

Adoro misturar diferentes temas na leitura, uma vez que é com esta que aprofundo matérias que estou a aprender no momento.

Como não é só de trabalho que se faz a vida, dedico bastante tempo e atenção a cultivar-me noutros conhecimentos; este ano, e como já falei aqui, é o embarcar no curso de Yoga para um dia, quem sabe, poder dar aulas.

E por essa razão li esta obra basilar do Yoga (lido corretamente como iouga, malta), nesta edição comentada por um importante Mestre contemporâneo, Satchinanda.

Mais que um guia para a filosofia yogi, os Yoga Sutras são o único texto que reune e esquematiza os 8 princípios fundamentais do yoga, que nos falam do crescimento interior, da importância de seguir uma prática constante do que acreditamos, do respeito pelo outro e pelo que nos rodeia.

Bom: mesmo para “leigos” na matéria (porque o Yoga é para todos), os Yoga Sutras podem ser um importante auxílio ético e moral. Dá relevo aos aspetos que uma pessoa deve trabalhar ao longo da sua vida para atingir o seu máximo potencial e ajudar de forma honesta e altruísta que a rodeia.

Mau: nada a apontar.

Nota: li a versão inglesa, tal como Satchidananda escreveu. Não sei se haverá edição portuguesa.