Eliete e a vida normal

Cruzei-me com Eliete a propósito de uma resolução literária para 2020: ler mais autores portugueses. E que mergulho delicioso na vida normal.

Autora: Dulce Maria Cardoso

⭐⭐⭐⭐

Ver este livro na Bertrand

É tão fácil “perdermo-nos” pela literatura internacional, traduzida ou não, que por vezes esquecemos a qualidade da escrita em Portugal, nas últimas décadas.

Não tinha lido nada, ainda, de Dulce Maria Cardoso e por isso o encontro com Eliete foi um mergulho de cabeça na parte funda da piscina.

Não houve um molhar o pézinho para temperar o corpo e testar as águas. É que nada me preparou para o que seria esta narrativa, a sua complexidade, os twists, a semelhança com a realidade.

Algo sem dúvida a destacar nesta obra é o denunciar e o inverter de papéis tão enraizados na cultura patriarcal. A menina que é constantemente alertada para a boa postura, própria de uma senhora, de como se deve comportar com os outros e ignorar os rapazes que podem arruiná-la. Aqui, é a mulher quem se aborrece com um casamento outrora marcado pelo fulgor e paixão, de um marido que se cola mais ao ecrã que ao seu corpo; ignorada pela família atual, é na avó demente que recorda o que, à luz da vida atual, parece bom no passado.

Temos a mulher que sofre com o que a da expressão “meia idade” lhe dá, as dúvidas existenciais do que podia ter sido e nunca vai chegar – como se houvesse uma “idade” e um fim claramente marcados num calendário.

Eliete vive a dor da atenção que ninguém já lhe dá, da incompreensão do mundo da filha mais nova e da simpatia caridosa que a mais velha lhe empresta. Divide os dias entre o que os outros querem dela e as ambições no ramo imobiliário que nunca atinge, cuidando da avô paterna e ficando-se pelo eterno desdém dos colegas que, na verdade, inveja.

A mãe mantém-se como fantasma de um passado doloroso explicado “às pinguinhas” e reconstituído da forma possível pelas memórias de infância de Eliete. E o presente não se afigura mais simpático, com uma mãe cada vez mais amargurada, cínica e fria.

É nos engates propositadamente sem futuro que vai vivendo a aprovação dos outros, a experimentação do que ninguém lhe dá, a adrenalina jovem que a refresca.

Nem sequer é uma vida dupla secrtea, primeiro porque a primeira nem é bem uma vida, é mais uma má telenovela que acontece perante os seus olhos. Segundo porque nem precisa de esforçar para manter o segredo, tal é o desinteresse que a restante família tem pela mãe Eliete.

Um retrato libertador para a figura feminina, sem pudor nem meias-palavras, mas com um final tão inesperado que a confusão me mata neurónios enquanto o tento decifrar.


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