O Meu Irmão e mixed feelings

Um retrato cru da relação de pólos entre dois irmãos. Quando o mais velho assume o cuidado do mais novo, com síndrome de Down, assistimos à tentativa de remendar feridas do passado – mas com uma resolução que soube a pouco.

Autor: Afonso Reis Cabral

⭐⭐⭐⭐

Antes de avançar nesta review, quero apenas recordar-te que AFR conquistou o Prémio Leya com esta obra, em 2014. Além deste, em 2019 ainda venceu o Prémio Saramago com Pão de Açúcar (que já está na estante para ler em breve).

O Meu Irmão traz-nos um relato, feito na primeira pessoa, de um professor académico nos seus quarenta anos, divorciado e aborrecido pela rotina dos dias. A morte dos pais levanta uma questão maior: quem, entre cinco irmãos, vai ficar a tomar conta de Miguel, o irmão mais novo com trissomia 21?

Na euforia de vingar o tempo perdido e o egotismo de se mostrar capaz da tarefa, é este irmão professor, apenas um ano mais velho que Miguel, que decide ficar encarregue da sua supervisão.

A narrativa é marcada pela viagem que os dois fazem à casa de férias, numa aldeia do Norte onde nada se passa, intercalada por analepses. A infância marcada pela crescente noção da diferença entre os dois e a distância física e emocional que os afasta nunca desaparecem totalmente. À semelhança das pessoas na aldeia, são marcas difíceis de apagar, vê-las é penoso e nunca há mudanças para melhor.

Numa tentativa de remediar essa ligação, o irmão mais velho assume a responsabilidade sobre a vida de Miguel e toda a bagagem que acarreta, sem saber exatamente o peso que ia ter. E, assim, os erros e dissabores do passado revelam-se uma constante, tanto pela diferença entre os dois que se assume como barreira intransponível.

A aldeia, no fundo, acaba por ser o terreno comum onde é possível algum tipo de comunicação e entendimento, ainda que por breves instantes e sem qualquer vestígio de felicidade plena.

Esta obra foi fantástica em cerca de 2/3, com uma linguagem altamente cuidada que me surpreendeu, uma narrativa real e reflexões mais filosóficas.

Apesar disso, senti que várias das resoluções finais nesta intriga foram, bem, descabidas. Exatamente: não batem muito certo com a narrativa até ali conduzida, nem com as atitudes até ali demonstradas pelas personagens (apesar dos seus temperamentos).

O desfecho da narrativa soube-me a pouco… Algo tão completo e interessante, um retrato real e cru que mergulha dentro do íntimo da personagem narradora, não tem uma conclusão à medida.

De qualquer forma, é um livro que vos aconselho ler e é, sem dúvida, um autor a acompanhar.