Nas pontas dos meus dedos

Num tempo em que tudo era simples, a minha alma dançava com naturalidade sobre as teclas, fazendo curvas invejáveis, tolas e completamente autênticas naquele ecrã brilhante. Deixava a mochila à porta e galgava as escadas, como um gato trepa, ansioso, qualquer obstáculo. 

Deixava-me sentar na cadeira gasta, que ocupava grande parte do pequeno quarto da minha irmã, carregava no botão cinzento situado na base daquela torre e caía no hábito. No hábito de me perder nas teclas abusadas de Debussy, sentir a chegada das lágrimas às amígdalas e vomitar-me, sem pudores nem receios. Traduzir-me em caractéres salvou-me tantas vezes de mim própria; Do ser rigoroso, perfeccionista e até caprichoso que tendia (e tende) a rugir-me ao ouvido. 

Traduzir-me em caractéres trouxe-me tantas vezes à luz, ao ato ficcional de me sentar ao sol e apreciar, só por alguns momentos, o nosso afamado lugar na Via Láctea; Trouxe-me tantas e tantas vezes ao ponto do conforto, restaurando a minha fé que amanhã seria um dia melhor e que, afinal, hoje o caminho não tinha sido tão tortuoso quanto parecia. 

Cedo percebi que essa dança da minha respiração sobre o teclado era-me inevitável. Multipliquei-me, fiz de mim tantas pessoas, cresci e encolhi, mas sempre foi o som mudo desse vómito a trazer-me tranquilidade.

No teclado, perdi-me e encontrei-me. Construí-me. Pude cuspir de mim o que não queria ou o que queria mas não sabia como mostrar ao alheio. Pelo teclado, descobri o mundo: O meu, o dos outros e o daquelas pessoas que insistiam (e insistem) em falar-me ao cérebro, sem lógica. 

Depois de tantas marteladas, ainda lhes falta sentido e, a mim, falta-me o talento, a coragem ou o engenho de lhes contrariar a condição.

 Não consigo, portanto, fazer mais que esta doce cascata de verbos e nomes sem estrutura. Tarda o meu sonho de espelhar-me num maço de folhas a que alguns chamarão livro e, pelo caminho, perdi o fogo. As faíscas são cada vez menos evidentes. Talvez a humidade que me criou, naquela ínsula distante, tenha conseguido finalmente chegar-me ao âmago. Mas não fora justamente essa humidade a produtora tão de larga a chama? Com certeza, foi também ela a responsável por fazer do meu talento um ser coxo, incapaz de ultrapassar o seu próprio umbigo e de soprar vida nas cavidades cardíacas desses monstros ou anjos que me atrapalham o raciocínio. 

Fico, então, aqui. A meio gás. Longe do sonho e desse talento, enquanto lambo as minhas feridas, ditando palavras sobre números e criando mundos verdadeiros enquanto os reais teimam a permanecer no meu crânio. Por agora, fico aqui, com esses seres presos em potência, sem que as suas histórias consigam escapar-me. Fico aqui, absorvendo as vitórias dos outros, em molhos de centenas de páginas amareladas. Um dia, talvez. 

Por Isabel Patrício

Nasci no meio do mar e foi aí que as páginas me roubaram o coração. Depois, tornei-me jornalista. Hoje escrevo sobre Trabalho, enquanto dou voz aos desafios do futuro do emprego no “Eles Vêm Aí”. Estou ainda à procura do momento em que verei o meu nome numa capa dura.