Como os livros nos inspiram a contar histórias de forma diferente

Há livros e livros. E há histórias e histórias. E depois há livros que têm histórias que nos marcam para sempre e nos fazem querer, um dia, ao fim de muito e muito trabalho, contar histórias assim.

Há livros que marcam um tempo, uma época, uma fase da vida.

E há livros que nos ficam para a vida toda!

No meu caso, são muitos – até porque leio que se farta – os que me ficaram na memória e que marcaram a minha forma de olhar para o mundo e a forma como desenvolvo a minha actividade à volta do Storytelling.

No entanto, quando fecho os olhos e penso num que me tenha ficado na cabeça de forma incomparável, vem-me imediatamente à cabeça o mestre Ernest Hemingway e o seu “O Velho e o Mar”.

É uma história absolutamente fabulosa e que nos marca para sempre – por falar nisso, comecei a lê-la novamente.

A importância de começar bem

Seja qual for a história, o arranque é absolutamente determinante para o sucesso da mesma. E Hemingway – que foi jornalista no The Kansas City Star, antes de partir para a Europa para conduzir ambulâncias durante a 1ª Guerra Mundial – sabia perfeitamente da importância fundamental de um arranque bem feito que prendesse desde logo a atenção do leitor.


“Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo e saíra já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe”.

Esta frase tem tudo. Absolutamente tudo. Completamente tudo. 

E faz com que as palavras se transformem em magia pelo simples facto de existirem, desta forma, encadeadas umas a seguir às outras. Neste jeito tão próprio de as alinhar que só um observador ávido e um pensador exaustivo consegue ter.

Somos imediatamente conduzidos para o barco – o esquife – para o velho, para a falta de peixe e para o que quer que seja que o autor decida mostrar-nos dali para a frente.

Outra coisa que Hemingway consegue – e que é tão perfeitamente raro – é fazer com que a primeira frase cumpra imediatamente a promessa que é feita no título.

“O Velho e o Mar” cumpre-se na sua primeira página e impede-nos de o largarmos até percebermos o que vai ser da vida daquele velho.

Os elementos fundamentais de qualquer história

No que às histórias diz respeito, a maioria das grandes histórias que conhecemos, que lemos, que vemos, ou nos são contadas, tem (regra geral) esta fisionomia.

Há 1 PERSONAGEM que quer alguma coisa.

Essa personagem encontra um PROBLEMA.

No pico da frustração aparece um GUIA (neste caso, uma marca) que lhe oferece um PLANO.

Esse GUIA desafia a nossa personagem a AGIR.

Pelo caminho vai enfrentar PROBLEMAS, encontrar OBSTÁCULOS, e pode mesmo chegar a um ponto crítico onde tudo parece perdido.

No final, essa acção acaba por ser vital para que a PERSONAGEM consiga alcançar o SUCESSO e tentar evitar a DESGRAÇA, o que nem sempre acontece.

E no ”Velho e o Mar”, a coisa acontece precisamente assim. 

Na 1ª linha podemos perceber logo quem é a personagem e qual é o problema. 

O que nos faz querer perceber o que lá vem.

Depois, depois é o génio inconfundível de Hemingway que se encarrega do resto e… caramba, como é magistral a forma simples e de fácil percepção e compreensão com que este mestre da Literatura nos deu tantas e tão belas histórias.

Como os livros nos podem fazer contar melhores histórias

A melhor coisa de um bom livro é a possibilidade que este nos oferece de abrirmos as portas de um admirável mundo novo. De entrarmos num planeta que difere do nosso em tudo. Com personagens que nos mostram caminhos nos quais nunca nos tínhamos pensado perder.

E isto, isto é um tónico imbatível para a cabeça e para a imaginação de contador de histórias, de um criador de conteúdos, de um comunicador, de um formador, etc…

O facto de estarmos a ver o mundo através dos olhos de alguém que nos quer dar a conhecer uma versão alternativa do mesmo – e isto para mim é do material mais rico que existe no planeta – permite-nos imaginar. Sonhar acordados. Projectar na nossa mente uma realidade alternativa. Mais bela. Mais perfeita. Mais limpa. Mais lógica. Sendo esta maravilha uma proeza apenas ao alcance dos eleitos que trabalham a vida toda para a alcançar. Porque ninguém nasce a escrever assim.

Deste modo, a diversidade de fontes de inspiração faz com que o contador de histórias se consiga focar naquilo que é verdadeiramente importante: captar a atenção de quem o ouve ou lê e conseguir transmitir uma mensagem da forma mais simples, cativante, clara e eficaz que conseguir.

Em “O Velho e o Mar”, como disse sabiamente o tradutor e prefaciador do livro para Português, o enorme Jorge de Sena, estamos perante um poema em forma de prosa, que retrata de forma magistral a naturalidade da vida humana, fazendo com que o leitor perceba pelas palavras incrivelmente bem alinhadas de um dos mestres maiores da Literatura, a simplicidade da natureza dos Homens e a capacidade que temos de persistir num mesmo caminho em que acreditamos, seja qual for o grau de adversidade com que vamos sendo confrontados ao longo do mesmo.

A estrutura de uma história mostra-nos precisamente isso. 

Que há uma jornada. Que há um caminho. Que há uma certeza inabalável na crença dos homens que faz com que estes resistam às mais incríveis provações e consigam perseguir os seus sonhos, os seus objectivos, ou os feitos a que acreditam estar destinados.

O que eu aprendo com os livros e aplico na minha vida profissional

Os livros ensinam-me a viver. Ensinam-me a pensar.

Os livros mostram-me que, antes de mim, muitos e bons homens passaram por problemas tão maus ou piores e conseguiram vencê-los através da persistência e da fibra moral que os impede de ceder à adversidade.

Os livros mostram-me mundos dentro do meu mundo e fazem-me querer construir os meus próprios mundos dentro do curto passeio que a vida me oferece.

Não sei o que seria de mim sem eles.

Acompanham-me desde sempre. 

Comecei a ler com 4 anos.

E, como bom míope que sou, aproximei-me deles desde cedo.

“Andavas sempre com um livro atrás, filho. Sempre”. E toda a gente sabe que as mães não mentem.

Leio pelo menos 20 livros por ano. Todos os anos. E é pouco. Queria ler mais.

Livros técnicos pelo caminho.

Mas quem me tira a ficção e os romances, tira-me vida.

E se não tiver vida para apreender e interiorizar… de que me serve escrever ou tentar ter histórias para contar? De nada. De absolutamente nada.

Para terminar…

Um conselho (mesmo sabendo que não me pediste conselho nenhum) que espero conseguir inspirar-te a seguir: lê! Lê tudo. Lê tudo aquilo a que conseguires deitar a mão.

Todos os escritores de valor são e foram ávidos leitores; devoradores insaciáveis de livros. E é o caminho certo. É o único caminho possível.

Ler muito e tentar escrever o mais possível. Já viste a sorte que temos por podemos viajar sem siar do mesmo sítio?

Porque para ser um bom contador de histórias, como qualquer coisa na vida, é preciso treinar muito. Ler muito. Escrever muito. Conhecer muitas histórias. De todas as espécies e formas. As boas e as más.

E quando o fazemos, passamos a prestar outra atenção ao mundo que nos rodeia.

Se quiseres aprender mais sobre isto, procura-me e inscreve-te num dos meus workshops. 

Até lá, boas leituras e… bons sonhos!

P.S – Desculpa, mas tive de acrescentar este P.S por uma razão triste, mas que se impôs – a morte de Luis Sepúlveda. Um dos mestres das histórias lindas. 

O mundo vai dormir mais triste durante várias noites. 

Não é que este fosse um ser humano melhor que os outros, mas é a forma única que ele tinha de olhar o mundo e de fazer do planeta um lugar menos cinzento, que faz com que este seja um dia particularmente triste.

Choram incrédulos (para além dos seus amigos, conhecidos e dos familiares, claro está) todos os personagens que criou. Todos os animais a quem deu vida e voz. Todos os mundos dentro do seu mundo.

Adeus, Luis. 

E obrigado. 

Do fundo do meu coração.

Por Martim Mariano


A minha missão é ajudar as pessoas e as empresas a aproximarem-se através das histórias que ambas têm para contar. Para além disso, dou formação sobre Storytelling (online e presencial) para Negócios e também na criação de conteúdos; bem como formação em Copywriting e Web Copywriting e em Escrita Criativa.