Kafka à Beira Mar e o determinismo cósmico

Uma alucinação a roçar o estóico que me prendeu de início ao fim. As personagens e twists que testam a nossa sanidade mental, ou não fosse o autor Murakami, vêm expor a eterna dúvida existencial: estamos ou não condicionados pelo destino?

Haruki Murakami

⭐⭐⭐⭐⭐

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400 páginas de pura alucinação. Mas já estamos habituados a isto em Murakami, não é verdade? Este foi o terceiro livro que li do autor japonês e a curva ascendente da minha curiosidade por ele, iniciada com A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, mantém-se.

Há elementos em Kafka à Beira Mar comuns a outras narrativas do autor, a começar pelo título: que não nos diz, realmente, nada de nada sobre o livro. Nem é sobre Kafka nem se passa à beira mar – o que já nos diz muito sobre o imaginário de Murakami.

Duas histórias narradas em paralelo: Nakata é um velhote profeta que fala com gatos e Tamura um jovem assombrado por uma profecia rogada praga pelo próprio pai. Eventos peculiares, encontros de outra realidade, destino que assombra, confusão entre realidade-sonho-alucinação, real liberdade humana.

Mas não será a vida isso mesmo?


– ‘Até mesmo os encontros fortuitos’… como é o resto da frase?
– ‘São fruto do destino’.
– É isso mesmo. Mas o que é que isso significa? Que todas as coisas na vida são determinadas por uma vida anterior. Que neste mundo não há coincidências e que até as coisas mais insignificantes não acontecem por acaso.


Murakami já nos habituou a estas confusões dentro das suas histórias, onde as personagens parecem tresloucadas e as suas vidas constantemente povoadas por crises, dúvidas e indecisões.

Em Kafka à Beira Mar, temos outro magnífico exemplo da escrita tão complexa e da narrativa labiríntica do autor. Um percurso em espiral, cujo vortéx nos suga mesmo quando pouco entendemos do que raio está ali a acontecer.

Durante toda a narrativa, estão bem presentes a dicotomia e a polaridade de cenários ou opções. Nunca há soluções perfeitas: apenas uma menos má que outras – o que torna difícil o processo de reflexão e de escolha para as personagens.

Mas, no fundo, é também possível entrar em paz com isto mesmo: com o facto de podermos nunca escolher um ou outro, mas antes de oscilarmos, observarmos e aprendermos com os cenários que nos desafiam.


Tenho a certeza de que apreciaste devidamente estes dias sozinho no meio da natureza, mas não é fácil viver assim durante muito tempo (…) Em teoria, não é impossível viver assim, e é óbvio que há quem o faça. Mas a natureza é, de certa maneira, perversa. E a paz de espírito pode constituir uma ameaça. Viver com essa contradição requer preparação e experiência. Daí que estejamos agora mesmo a voltar para a cidade. De regresso à civilização.

Enquanto tenta fugir ao destino que lhe foi rogado, o jovem Tamura percebe que possivelmente o estará a fazer cumprir – e está tudo bem com isso. É preferível entrar em paz com o facto de pouco ou nada controlar, que viver eternamente fugido a uma ameaça que se fará cumprir, mais cedo ou mais tarde.

Já o velho Nakata não questiona absolutamente nada do que tem para fazer, por mais absurdo que seja, mas sabe que está no caminho certo “quando lá chegar”. Limitado por uma doença fulminante quando era criança, perdeu a faculdade de introspeção, de reflexão e até entendimento com o próximo. Vive na sua bolha, tranquilo, cumprindo o lhe chega sob a forma de sensações como mero observador da sua vida e do que o rodeia – um

A leitura de Kafka à Beira Mar é um daqueles momentos em que nos voltamos a questionar sobre Destino e livre arbítrio, assim como coincidências e sinais que não compreendemos na totalidade. Sobre o nosso poder de decisão e a manipulação definida a priori desta vida. Sobre as encruzilhadas e a matrix que as domina. Enfim, sobre o que se vive, o que se evita, o que nos persegue, o que nos domina e o que dominamos.

Uma história repleta de encontros absurdos, com o mundo exterior e aquele que cada um vive dentro de si, de polaridade e dúvida, onde a salvação reside em simplesmente aceitar o que está na nossa natureza e ir com a corrente.