A Gata e a Fábula

Na sociedade do pós Segunda Guerra Mundial, a juventude decadente do que resta da classe aristocrática portuguesa não faz ideia do rumo que quer dar à sua vida. E como se pode renascer se nem se sabe do que se morre?

⭐⭐⭐⭐

Fernanda Botelho

N’A Gata e a Fábula, a história é narrada na perspetiva de várias personagens de uma mesma ação, ao longo de várias épocas marcantes. O círculo de convívio é o mesmo e percebemos, assim, os pontos de vista de cada um, as suas alegrias, os seus desgostos e as suas memórias.

Habituados a passar os dias na preguiça e na riqueza de família que se esgota há algum tempo, os jovens vivem sem ambições, talentos ou objetivos além de um quotidiano fútil, paixões típicas e dramas menores.

Os exemplos que os rodeiam são igualmente inúteis no desenhar do futuro: casamentos arranjados para manter heranças ou conquistar outras, inexistência de amor e afeto, conflitos entre quem se é e o que a família deseja que se seja, paixão obsessiva e repulsa intrínseca.

Os anos passam e o apego às memórias é tanto bóia de salvação como razão de afogamento para uma juventude que se perde no tempo. E quando parece que finalmente se avança, percebe-se que é apenas fogo de vista.

Cada um luta pelo seu lado, sem ter qualquer atenção por algo mais que o seu umbigo e a sua própria felicidade. Tudo isto é comum às personagens d’A Gata e a Fábula.

Há uma busca constante pelo renascer, o deixar para trás as tormentas, as pessoas e os lugares que não se querem mais. Mas ao mesmo tempo é difícil identificar o momento ou a razão desse novo nascimento, dessa nova vida, quando nem se entende o que estava errado antes.

Com uma linguagem bem cuidada e rica, descrições a roçar um realismo queirosiano e sarcasmo bem patente, Fernanda Botelho escreve em tom crítico e divertido.

Se há uma jovem totalmente pateta perdida de amores, há também o intelectual de ruptura, a esposa frustrada, o pai brutamontes, a rapariga atiradiça e o rapaz que só quer agradar os outros. O resultado é um cómico retrato social e familiar, palco de todo o tipo de dramas e tragédias ridículas.

Não há propriamente um desenrolar viciante ou mais abrupto nesta história, tudo passa a seu passo e por vezes até de forma mais lenta do que estamos habituados ou desejamos. Ainda assim, é o tempo certo para se mergulhar nas personagens, nas suas quezílias e nos seus dramas.

Uma narrativa que me surpreendeu e cativou pelo estilo tão rico e interessante, no retrato da decadência aristocrática.

Nunca tinha lido nada desta autora, e tu? Já conhecias? Ficaste com curiosidade?


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