Perseguir A Sombra do Vento

Primeira incursão pela obra de Carlos Ruiz Záfon: uma aventura que nos prende, ora sem fôlego ora com preguiça de continuar. Uma escrita sublime que já tinha saudades de encontrar, mas uma resolução da história que deixou a desejar.

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Carlos Ruiz Zafón

Não é tão bom quando descobrimos uma leitura como há muito não encontrávamos? Apesar de ler muitos e bons livros, tornou-se raro encontrar em obras recentes algo que adoro: uma linguagem rica e cuidada, repleta de metáforas e de descrições bem trabalhadas, com os adjetivos e comparações mais certeiras.

Estava a amanhecer e um fio de púrpura rasgava as nuvens e salpicava as fachadas dos palacetes e casarões senhoriais que flanqueavam a Avenida del Tibidabo. O elétrico azul rastejava preguiçosamente entre neblinas. Corri atrás dele e consegui trepar para a plataforma traseira sob o olhar severo do revisor. A cabina de madeira estava quase vazia. Um par de frades e umas damas enlutadas de pele cinzenta embalavam-se adormecidos com o vaivém da carruagem de cavalos invisíveis.

A ação principal desenrola-se em finais da primeira metade do século XX e é-nos contada na primeira pessoa pela personagem principal. Assistimos à emergência da “nova” cidade de Barcelona, industrial e poluída, onde as sombras e a azáfama dos dias revelam uma nova era pós-guerra num “cinzento” transversal à cidade, às pessoas e às ações.

Com uma escrita exímia e repleta de detalhes, Zafón transporta-nos facilmente para as cenas que descreve. Tudo é descrito de forma tão particular e completa que somos de imediato transportados para os locais da ação, para o lugar das personagens e para dentro desta história.

Daniel é o jovem que nos leva nesta aventura, despoletada pela descoberta de um livro aparentemente banal de título A Sombra do Vento. À medida que Daniel e o seu círculo próximo tentam desvendar mais sobre este livro e o seu enigmático autor, Julián Carax, descobrem histórias e eventos peculiares, num enredo com décadas de existência, duelos familiares e dissabores amorosos de levar à loucura.

Foi, sem sombra de dúvida, a escrita que mais me fascinou. Depois há ainda uma aura negra e fatalismo que persegue as personagens e que se estende aos cenários e ambiente da cidade, trazendo uma sensação de que o Mal se embrenha em tudo e que ninguém lhe consegue escapar, lançando as personagens em constantes reflexões e introspeção.

O mal pressupõe uma determinação moral, intenção e um certo pensamento. O imbecil ou burro não pára para pensar nem para raciocinar. Age por instinto, como animal de estábulo, convencido de que está a fazer o bem, de que tem sempre razão, e orgulhoso por andar a lixar, com vossa licença, todo aquele que se lhe afigura diferente dele próprio, seja na cor, na crença, no idioma, na nacionalidade ou, como no caso de don Federico, nos seus hábitos de lazer. O que é preciso no mundo é mais gente verdadeiramente má e menos casmurros limítrofes.

Esta ideia do Destino que nos persegue, e que podemos nunca desvendar o propósito na existência, é transversal a toda a narrativa, encontrando-se em diversas passagens e reflexões da maioria das personagens.

Acho que nada acontece por acaso, sabes? Que, no fundo, as coisas têm o seu plano secreto, embora nós não o entendamos. Como o de teres encontrado aquele romance de Julián Carax no Cemitério dos Livros Esquecidos, ou de tu e eu estarmos agora aqui, nesta casa que pertenceu aos Aldaya. Tudo faz parte de qualquer coisa que não conseguimos perceber, mas que nos possui.

Devo confessar que, apesar do argumento inicial me ter conquistado, a narrativa não o conseguiu de forma homogénea ou constante…

A premissa inicial e todo o ambiente em torno de livros e seus mistérios cativou-me desde o primeiro instante. Literalmente “shut up and take my money”. Qual é o amante de livros que não fica “embeiçado” por uma história sobre eles?

Não podia evitar pensar que seu eu, por puro acaso, tinha descoberto todo um universo num só livro desconhecido no meio da infinidade daquela necrópole, dezenas de milhar mais ficariam inexplorados, esquecidos para sempre. Senti-me rodeado de milhões de páginas abandonadas, de universos e almas sem dono, que se afundavam num oceano de escuridão enquanto o mundo que palpitava fora daqueles muros perdia a memória sem disso se aperceber dia após dia, sentindo-se tanto mais sábio quanto mais esquecia.

Mas a verdade é que não consegui, de forma consistente, adorar esta leitura. Não compreendi bem a integração de certas ações e personagens, a personagem de Fermin irritou-me pela contradição entre a sua “filosofia de bolso”, cavalheirismo e atitudes machistas em simultâneo, o nó da intriga teve uma resolução demasiado básica.

Apesar de não considerar a história previsível, como outros leitores que me falaram deste livro, senti que A Sombra do Vento ficou um pouco àquem do que esperava. Certas escolhas tornaram a narrativa demasiado complexa, mais ao estilo televonela que romance arrebatador.

Apesar disto, e reitero a excelência da escrita de Zafón, foi uma leitura agradável. Irei ler os próximos volumes desta tetralogia e perceber se a minha interpretação se altera ou não.

Já leste este livro? Diz-me o que achaste ou se está na tua lista de leitura.


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