O peso do que não fomos (pt. II)

Depois, sempre a sombra dos estudos a fazer e do caminho a seguir. Já nem sei se o problema foi ter poucas escolhas ou os gostos não servirem para grande coisa

Para ler antes: O peso do que não fomos (pt. I)

Nunca fui a criança que experimentou dezenas de atividades ou desportos no tempo livre. Rápida e facilmente percebi que três coisas ocupavam mente e coração de manhã à noite: dançar, ler e escrever.

No fundo, qualquer ato de criação ou momento de criatividade mexia com o mais ínfimo dos meus átomos. O que, vejamos, assusta qualquer encarregado de educação que vê as notas importantes sempre entre os 40% e os 70% nas matérias que “dão emprego”.


Pior para mim, que acabei com jeito para línguas e, por consequência, para nunca alcançar grandes fortunas.


Entrei na universidade no pico de uma crise económica, de modo que a prioridade (antes ameaça, agora urgência) era, vá-se lá saber como, enveredar por algo que gostasse mas que também (e sobretudo) me trouxesse um emprego.

Oremos, irmãos: a dança ficou fora de jogo bem cedo (“não há cá escolas disso”), a escrita também (“isso é para os tempos livres”) ninguém é pago para ler (disseram-me). Eu não sabia fazer mais nada, mas surgiu algo minimamente aceitável para ambas as partes e deu-se o divórcio Alma-Joana.

Nessa altura todos se preocupavam: está a correr bem?, é o que imaginavas?, é o que queres fazer profissionalmente?, e os colegas?. Enfim, todo um ciclo básico de perguntas com a invariável resposta “sim”, para não me aborrecer nem a pensar nem a responder.

Canudo na mão, muita energia e um estágio depois, surge o primeiro emprego mas gira o disco e toca o mesmo: e o trabalho?, está a correr bem?, é o que imaginavas?, é onde queres crescer profissionalmente?, e os colegas?.


Poderia a vida adulta ser reduzida a isso? Depois de 9h fora de casa, tem de haver algo mais. Uns anos depois nesta rotina ensimesmada, concluí que sim, há. Boa Alma a casa retorna.


Mas agora já ninguém pergunta que tal vão os meus “passatempos”, coisas menores na roda viva da carneirada que soma dias e segue igual até à morte.

Custa-me como os adultos vivem sonhos, falhanços, desejos e receios através das crianças. E custa-me ainda mais que se continue a dar tanta importância, desde cedo, ao que dará ou não trabalho, que curso terá ou não saída – para onde, se a vida adulta é aquele labirinto enigmático revelado como nos filmes: vista área, depois da morte?

(continua)