O peso do que não fomos (pt. III)

Não sei o que será pior: gostar de muita coisa ou não gostar de nada. Talvez assim reduzisse a pressão sobre mim mesma em como todos os projetos, hobbies, ideias têm de correr bem e ter excelentes resultados.

Para ler antes: O peso do que não fomos (pt. I) e O peso do que não fomos (pt. II)

Padeço deste grande mal que são “altas expetativas”, “síndrome do impostor” ou simplesmente “pôr a carroça à frente dos bois”.

Sim, talvez seja mais esta última a grande armadilha na minha vida. Desde que me lembro sou uma pessoa que sofre por antecipação, com alma em ânsia pelo futuro e um corpo preso a um tempo sempre passado.


Depois, claro, há alturas em que essas duas linhas temporais – etérea e terrena – se cruzam e sinto-me, de facto, realizada. Mas é como sol de inverno: de pouca dura.


Se sinto os gostos alterarem muito ao longo tempo? Nem por isso. Se sinto que há passatempos e projetos que me interessam por um curto período de tempo? Também não. E aqui reside o busilis da questão: é um acumular de tantas ideias, desejos, hobbies, projetos…, que fica difícil dedicar corpo e alma ao assunto.

Com o tempo, tenho aprendido a colocar estas “coisas” dentro de caixas na minha mente, consoante ordem de importância – o que me obriga, ainda, a refletir sobre o que está determinado a falhar e nem vale a energia, assim como a tomar responsabilidade por algo que tem grandes promessas de sucesso.

Porque nem vivendo mais 3 centenas de anos eu conseguia descobrir tudo o que me apetece, tudo o que me fascina e tudo o que desconheço. Era preciso, se calhar, não dormir nesta vida para conseguir desenvolver tudo e mais um par de botas – mas, não sendo vampira, resta-me descansar.


Deixando para mais tarde (ou para nunca?) uma série de planos, lá consigo direcionar a fúria do açúcar para o que, realmente, consigo concretizar.


Depois vem a pressão, auto imposta, de que o projeto tem de ser um sucesso. Frutífero. Com resultados. De facto, há um objetivo pessoal para tudo o que concretizo, mas tenho sentido ultimamente esta sombra que me persegue de que tem de ma-ra-vi-lho-so, a minha melhor ideia, o meu maior sucesso.

E nem é para ninguém: é para mim mesmo. Crio este “monstro” de que tudo o que me proponho a fazer deve perfeito de imediato ou após pequenas correções. Se não, então foi um fracasso, uma perda de tempo e um golpe brutal para o meu pobre coração.

Ainda estou a trabalhar este lado, lançando-me no Yoga e na meditação para aprender a descontrair, a aproveitar cada momento no presente e não viver com ansiedade pelo futuro. Mas reparem que até isto eu quero aprofundar de forma mais séria: e estou a fazer um curso para ser instrutora de Yoga.

Eu sei, não aprendo…

Como gostava de me sentar apenas, impávida e serena, ver os dias passar na rua e a telenovela na TV.