O peso do que não fomos (última parte)

Ficaria, realmente, contente por me debruçar sobre um só passatempo? Ou estarei apenas a procrastinar o desenvolvimento mais a fundo de todos os outros?

Para ler: O peso do que não fomos (pt. I), (pt. II) e (pt. III)

De facto, é difícil concretizar com igual atenção, empenho e sucesso todos os projetos e ideias a que me proponho. Assim como é um desafio aquietar a mente que teima em saltar uns anos e querer tudo aqui, agora.

Como posso viver no presente quando todos os planos que traço são para o futuro?


Faço um esforço e uma ginástica constantes, entre vontades e possibilidades, esticando a corda e testando a sanidade mental. Sigo no trapézio, balançando entre a base segura e o que quer que aconteça no patamar seguinte.


É demasiado fácil perder horas a conjeturar sobre tantas ideias e quimeras… e mesmo quando parece que nada há mais para inventar, cá está a minha mente às três da manhã, naquelas insónias repentinas, a planear de que forma vai encaixar tudo na agenda.

Apesar dos momentos em que o coração salta um batimento, pelo entusiasmo ou frustração, sinto-me a ganhar controlo sobre essas rédeas que puxam a carruagem outrora desenfreada. Estou cada vez mais consciente dos únicos dois braços – e 24h – que tenho e de que há concessões a fazer.

Porque no meio de todo o caos, entendi que parar por necessidade causa maior angústia e obrigo-me a considerar os projetos viáveis para que isso não aconteça.


E então é todo um monólogo interno onde me chamo a argumentar sobre as ideias – e depois sou eu também quem apresenta contra argumentos, refutando e concluíndo “mas que estupidez, deixa lá isso para outra altura”.


Descobri o primeiro cabelo branco há uns dias, por exemplo, e tenho a certeza que é reflexo desta confusão que tanto me atormentou.

Por agora posso dizer-me satisfeita. A carroça já fica atrás dos bois e na encruzilhada escolho de forma serena o caminho a seguir.

Consigo finalmente explorar o que quero sem o peso da expetativa, da minha e da dos outros. Desligo as vozes teimosas que aí aparecem para confundir e duvidar, dedico alma e coração e: olha, o que será, será.

No fim de contas percebo que, neste salto de trapézio, importa mais a coragem para saltar e fazer aquele incrível mortal encarpado, para o qual andei tanto tempo a treinar.