Perdidos em Jesusalém

Fugir para fora é mais mergulhar para dentro do que ser esquecido. Será mesmo possível fugir do mundo quando ficamos a sós com o nosso? No meio do nada, o silêncio exterior dá lugar ao barulho que tanto nos incomoda por dentro e que por tanto tempo quisemos calar.

⭐⭐⭐⭐

Mia Couto

Jesusalém é a “terra de ninguém”: uma quinta abandonada que o patriarca Silvestre Vitalício reclama para si e para os seus filhos, Mwanito e Ntunzi, longe de tudo e de todos. Mas quando as fundações da alma não são suficientemente fortes, também a casa fica mal construída e, com o tempo, ameaça ruir.

Através de uma escrita poética e uma narração com a dose certa de detalhes, Mia Couto traz-nos uma história que é, em simultâneo, um deleite para o leitor e um murro no estômago de todos os adultos.

Mwanito é nosso narrador, filho mais novo de Silvestre, que se vê arrastado para a utopia paranóica de um pai agastado – pelo quê? Demasiado novo para compreender o que se passa, Mwanito conta-nos o que vive como mero observador. Não tem qualquer memória da sua mãe que partiu e ninguém lhe explica o que se passou, nem com ela nem com a vida anterior a Jesusalém.

Nem os nomes dos familiares permanecem os mesmos nessa brusca tentativa de alienação. Moçambique desaparece, a cidade é onde nunca se quer regressar; tudo o que se precisa para uma existência pacata está ali. Vivendo sobre as regras do pai, em Jesusalém não há memória, oração, leitura ou riso.

Ele sabia das ordens de meu pai. Em Jesusalém não entrava livro, nem caderno, nem nada que fosse parente da escrita.

Nada nasce e, portanto, nada há para morrer. Os dias sucedem-se, mas o que Silvestre esquece é que ele envelhece enquanto os filhos crescem apenas – e com eles a curiosidade, a pergunta, a crítica, a força.

Parece impossível continuar a conter o mundo lá fora, enquanto se tentam forçar regras rígidas sobre uma comunidade que não as aceita mais. A pressão crescente em Jesusalém traz a ruína da utopia – porque nem ela pode subverter regras acima.

– Os serviços de Fauna deram esta concessão a uns estrangeiros privados. Você vai ter que sair.

– Deve estar a brincar. Esses estrangeiros privados, quando chegarem, que falem comigo.

– Você vai ter que sair antes.

– Engraçado: eu esperava que Deus viesse a Jesusalém. Afinal, que vai chegar são estrangeiros privados.

Visitantes chegam vindos de um fora que não existia para Mwanito. Surgem mulheres, pessoas, anjos e demónios, cheiros, lixo, viagens, barulho, cidade e distância.

As mentiras de Silvestre ficam expostas para o pequeno, que vê a sua infância transformada e sempre despedaçada por pessoas que, no fim de contas, nunca tiveram o seu bem estar como verdadeira preocupação. Do vazio de Jesusalém para o vazio da cidade.

Porque eu sou como os habitantes de Jesusalém. Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço: evaporada em mim, véu esquecido num banco de igreja.

Uma história sobre o fim da inocência, o despertar da dúvida e do pensamento autónomo, escrita de forma sublime e onde as entrelinhas são o palco da ação principal. Uma narração que nos transporta para todos os momentos e imprime em nós todas as sensações de Mwanito.


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