A Amiga Genial

Primeiro livro de uma antologia de quatro, A Amiga Genial transforma o modo como se conta uma história. Com engenho e arte, entrelaça memórias e sensações que, na verdade, nunca ficam totalmente enterradas no passado.

⭐⭐⭐⭐⭐

Elena Ferrante

Finalmente lancei mãos (e olhos) à tetralogia da misteriosa Elena Ferrante – ainda hoje ninguém sabe quem é a autora, especula-se até que possa ser um homem, mas cá para mim isso também é irrelevante. Deixemo-la no anonimato, como pretende.

Os quatro livros acompanham a vida de duas amigas, Lila e Elena, contada por esta última. Da infância à meia idade, ouvimos as histórias e peripécias que ambas vivem, com intervalos e afastamentos pelo meio.

O que mais me fascinou nesta narrativa é a forma tão real e tão crua com os eventos são contados, sentindo mesmo que se trata de algo verídico e não fictício. As dores de crescimento, a pressão na escola, as amizades e as desilusões, as brigas no bairro e a luta numa vida de pobreza, cada vez mais percetível por crianças que crescem.

Este primeiro livro foca-se sobretudo na infância e adolescência das personagens, onde é bem visível a inveja que Elena (ou Lenú) sente face à sua amiga: Lila parece ganhar o primeiro lugar em tudo. Primeiro sendo inteligente sem esforço na escola, e depois (para surpresa de todos) tornando-se na jovem mais atraente.

Pela primeira vez pensei: Lila é mais bonita do que eu. Portanto, eu era segunda em tudo. Fiz votos para que ninguém se apercebesse disso.

A vida é circunscrita ao bairro pobre, à escola primária e aos conflitos inocentes das crianças. Mas tudo isso se expande à medida que as personagens crescem, se apercebem do que as rodeia e vincam as suas personalidades.

Se Lenú é uma rapariga tímida e esforçada, Lila marca todos com um mau feitio que causa tanto repulsa como fascínio. Numa vida de altos e baixos, com raros momentos de equilíbrio, percebemos que Lila vive de emoções exageradas, guerrilhas onde exerce o seu poder sobre os outros – um ego demasiado grande que gera conflitos e afasta toda a gente.

São vários os momentos e personagens que incitam Lenú a afastar-se de Lila, por todo o mal que causa e por ser uma “pedra no sapato” para a promissora Elena. Não tarde muito que a própria amiga revele o seu lado amargo, causando o princípio do seu afastamento.

Aquela carta teve como primeiro efeito fazer-me sentir, aos quinze anos, no dia do meu aniversário, uma impostora. A escola, comigo, tinha feito passar gato por lebre, e a prova estava ali, na carta de Lila.

Tudo o que se prenunciava para as duas meninas é, de certa forma, corroborado, mas não sem surpresas (para o bairro da história e para os leitores). São anos de grande agitação e transformação para as jovens, com duas vidas separadas por um fosso cada vez maior e pontes frágeis nas tentativas de as continuar a ligar.

Com uma escrita sem floreados ou espaço para poesia, Ferrante transporta-nos com maior rigor para a vida de dificuldades e poucos sonhos das personagens.

Uma leitura que recomendo bastante e uma das melhores descobertas que fiz em 2020.