Psicopata Americano

Se forem ler este livro, por favor escolham bem as horas do dia a que o fazem – nunca antes ou depois de refeições. Um retrato (demasiado) atual do homem ocidental, onde o ego distorcido cria uma espiral do que de pior há.

**Alerta**: este artigo contém referências a violência e comportamentos obsessivos

⭐⭐⭐⭐

Brett Easton Ellis

Lançado nos anos 90 e com uma ação passada na década anterior, é surpreendente perceber como esta narrativa grotesca e crua se mantém tão atual (30 anos depois). Num cenário marcado pelo avanço da tecnologia, vida de aparências – sem essências – e pico do capitalismo, Ellis construiu um macabro retrato da sociedade ocidental no seu expoente máximo de horror.

Na Nova Iorque dos anos 80, os arranha-céus exemplificam bem a altura que o ego das personagens atingem. Ricos e jovens, vivem de heranças e dos balúrdios que ganham em fraudes e trafulhices no trabalho.

Patrick faz-se rodear do mesmo grupo de amigos em todos os eventos, cujas preocupações são única e simplesmente: jantar num sítio in, encontrar miúdas para satisfação sexual e descobrir quem raio tem a conta da Fisher na consultora financeira.

Eu estava simplesmente a imitar a realidade, tinha algumas parecenças com um ser humano, com apenas um canto sombrio do meu cérebro a funcionar. Algo de horrível estava a acontecer e, no entanto, eu não conseguia saber o porquê – não conseguia entender”

Com uma linguagem recheada de palavrões, Patrick Bateman, a personagem principal, conta-nos o seu dia-a-dia que começa, invariavelmente, com uma rotina de beleza luxuosa e treino de ginásio e termina a assassinar alguma acompanhante de luxo depois de a torturar. Ou a ela ou a um cão, tanto lhe faz. Crítico com tudo, só aceita o que o seu ídolo, Donald Trump, acha bom – aí nem é preciso pensar duas vezes.

Nesta vida de excessos de um rapaz paranóico, também nós nos sentimos enlouquecer. A dúvida do que é ou não realidade implanta-se no leitor, levando-nos na espiral de loucura e paranóia da personagem principal. E este trabalho é feito de forma impecável pelo autor, através da narração intercalada de reflexões e conversas, mas também da ordem pela qual a personagem narra acontecimentos que ficam num limbo de real e surreal.

As paranóias são muitas e é nelas que se fixa e se perde – e tem noção disso mesmo, perdendo até o rasto ao tempo. Além da obsessão com o físico e o sexo, há capítulos inteiros dedicados a falar de bandas musicais,

Num momento Patrick ri contente e no seguinte está a insultar alguém, mas parece que ninguém o ouviu. Terá realmente dito aquilo? À noite, assassina sem piedade um rival e desfaz-se dele sem limpar as provas. Mas o apartamento afinal não tem quaisquer indícios e alguém janta com ele semanas depois. Um homem gay passeia o seu cão demasiado bonito e depois de lhe fazer uma festa Patrick mata o cão – mas isto é tão atroz que ficamos a pensar “aconteceu mesmo”, ou será mais uma fantasia como as outras?

Entre o cómico, o nojento, o asco, a confusão, estive do início ao fim com uma testa franzida: afinal, que raio se está a passar aqui?!

… há uma ideia de quem é o Patrick Bateman, um género de abstração, mas não existe um eu real, apenas uma entidade, algo ilusório, e ainda que possa esconder o meu olhar frio e consigam apertar-me a mão e sentir a minha carne (…) “Eu simplesmente não estou aqui”.

Se sabia o que ia ler? Não. Se estava preparada para ler isto? Nunca. Houve partes desafiantes para alguém com estômago fraquinho, como eu, mas a curiosidade para conhecer esta história de fio a pavio era muita.

E recomendo tanto o livro como o filme, que teve uma adaptação brilhante e uma interpretação ainda melhor de Christian Bale no papel principal.


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