Quando Servi Gil Vicente

Como terá sido ser pajem do grande dramaturgo português? Que histórias e peripécias podemos conhecer através da sua voz? Um livro divertido e perfeitamente encaixado no imaginário da época.

⭐⭐⭐⭐

João Reis

Estes relatos chegam-nos sob forma de uma carta que Anrique de Viena, um dos criados de Gil Vicente, escreve a uma dama em Amesterdão, amiga de ambos. É, no fundo, um recordar de alguns eventos que, mesmo sérios, acontecem de forma tão caricata que rimos do início ao fim – tal como nos autos do dramaturgo.

Estou exausto, Anrique. Guardo em mim toda a canseira do mundo.

Nota-se na personagem de Anrique uma dedicação singular e empática com os mestres que serviu, incluindo Gil Vicente, e a forma como as peripécias vividas em conjunto o marcaram para sempre. Ao mesmo tempo, denuncia-se a triste condição com que o dramaturgo teve de conviver até ao fim da sua vida, numa pobreza que esquece os bons feitos e altas conquistas – um pouco como ainda hoje vemos acontecer com os nossos artistas.

O leque de personagens alonga-se e encurta à medida da própria história, revelando amizades e quezílias que ora acontecem no passado, ora se mantêm no presente – como o reles dramaturgo Lopo Enes ou o vizinho chato no rés-do-chão, senhor Aires.

tocava ele flauta de caniço feita a toda a hora do dia e perturbando meu amo (…) um dia estendi o braço e lhe tirei a flauta da boca para logo a partir em duas, que lancei na rua, não mais se ouviu flauta tocar

O elemento de comédia e sátira nunca abandona a narrativa. Mesmo em momentos de angústia e onde nos parece que “a coisa vai descambar”, há um toque de cómico bem aproveitado e é impossível não nos rirmos.

Por ser narrado ao estilo de uma carta, a história não tem, portanto, capítulos ou qualquer tipo de divisão e mistura de forma muito interessante diálogos em voz ativa e passiva, relatos extensos e conversa, analapses e prolepses. Também nesse sentido há momentos cómicos, dramáticos, de introspeção e de pura narração.

Quem está demasiado sozinho com humanos se entristece de mágoa prolongada, pois é impossível ser feliz vivendo demasiado tempo consigo mesmo, as pessoas se odeiam não havendo ligação que as prenda à terra, e olhando umas para as outras em seus tugúrios fechadas em barracos se matam e estropiam

Apesar das frases extensas e parágrafos sem fim, nunca ficamos sem fôlego. É curioso como João Reis nos consegue transportar para um registo mais próprio da oralidade do que da expressão escrita através destas escolhas na sua prosa.

Quando Servi Gil Vicente é uma proposta singular no panorama literário atual, que nos mostra um conhecimento da técnica, da História e do género satírico bem aproveitado. Apesar da linguagem pouco fácil por espelhar a época e termos arcaicos, é uma obra que nos transporta aos séculos XV e XVI e que tão bem complementa o nosso imaginário sobre quem foi este grande dramaturgo português, ainda hoje estudado na escola.


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