Opinião: filosofar na leitura

Há uma importância acrescida no ato de filosofar na leitura. São duas atividades que podem andar de mãos dadas e quem pratica uma com a outra sairá sempre a ganhar – ainda que fique também com muitas dúvidas existenciais e questione até o seu percurso neste planeta no final da leitura.

É certo que a Filosofia na escola secundário pouco ou nada me interessou… mas mais tarde entendi o porquê: parece que, afinal de contas, a filosofia tem propósitos mais interessantes do que aqueles que nos enfiaram na matéria de dois anos.

Há algum tempo cruzei-me com a atividade curiosa dos “cafés filosóficos”, onde se pretende pôr a massa cinzenta a pensar, a levantar questões, a discutir pontos de vista e transformar opiniões. Ora não é tudo isso o que pretendemos (ou deveríamos pretender) alcançar com as nossas leituras?

Atenção: não digo aqui que todos os livros e textos que nos ocupam tenham de o fazer – afinal de contas, por vezes lemos precisamente para escapar à realidade e não para pensar, ainda mais, nela. Mas sem dúvida que as leituras com mais impacto são precisamente aquelas que nos fazem questionar e debruçar sobre o que nos inquieta, seja lá qual for o título, autor ou narrativa.

Parece-me que é preciso, cada vez mais, recordar o poder incrível que a leitura tem na construção cívica de todos nós. Porque ler é fácil, mas procurar significado e transformação pela leitura nem tanto…

Sim, é muito giro dizer que lemos 20 livros num ano, mas será que algum deles nos trouxe novos pontos de vista? Nos fez confrontar ideias? Nos ajudou a melhor a nossa argumentação? Abriu novas perspetivas e motivou a maior tolerância?

Tenho procurado fazer este exercício, de leitura profunda, tanto ou mais do que a leitura por mero hobby. Se tempo é dinheiro, então as horas investidas em leitura só nos tornam mais ricos (por dentro, na carteira é outra história). É com a capacidade de ler desta maneira que trabalhamos o nosso pensamento crítico, que estimulamos a criatividade, que desenvolvemos a interpretação, que alargamos horizontes, que nos tornamos mais moldáveis, menos rígidos.

É também disso que trata o “fazer filosofia”. Questionar, questionar, questionar. Resgatar o humano dentro de cada um e, pelo caminho, pensar sobre essa condição. Haverá, sem dúvida, diferentes formas de fazer este exercício de reflexão (como já pude testar) e sinto é bem possível filosofar na leitura.

Quero cada vez mais sair da zona de conforto, abandonar os livros que se varrem da mente horas após a leitura. É urgente resgatar esta leitura mais crítica, mesmo que no final tenhamos mais dúvidas do que certezas, que abandonemos crenças e mudemos de opinião – que mal tem isso?

Isto tudo para dizer, em jeito de conclusão, como me parece tão importante ligar o ato de ler ao de filosofar. Mais do que ler sobre filosofia, é filosofar enquanto se lê.

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