As Velas Ardem até ao Fim

Há momentos marcantes que esperam uma explicação e dela depende como se avança na vida. Para Henrik, decorrem 40 anos até que essa resolução chegue. Uma vida inteira deixada em pausa pelos fantasmas do passado.

⭐⭐⭐⭐⭐

Sándor Márai

Passaram muitos anos até tivéssemos as obras de Sándor Márai nas mãos, um dos autores húngaros que mais livros escreveu. Inicialmente bem acolhido pelo seu país, viu a sua sorte mudar quando se mostrou contra um regime político que cortava a liberdade de pensamento. Acabou por se exilar no estrangeiro até morrer.

Votado ao silêncio da censura no país por várias décadas e assim caído em esquecimento, o reconhecimento da sua obra veio após a morte, quando o regime se desmorona e os seus livros voltam a ser conhecidos.

As Velas Ardem até ao fim é um dos seus livros mais aclamados pela forma intrincada como explora as diferentes dimensões e fases da vida, as sensações humanas e a complexidade das relações que formamos ao longo do tempo.

Henrik e Kónrad foram grandes amigos desde a infância até à idade adulta e mesmo com origens distintas forjaram uma amizade singular que nos mostra a complexidade das relações que criamos: mais que amigos, não sendo irmãos de sangue nem um par amoroso, mas com a cumplicidade e admiração que se espera dessas ligações todas.

À medida que crescem, opera-se uma mudança nos laços que os unem por diversas razões. A verdade é que tudo se torna mais complexo quando surgem as responsabilidades da vida adulta, se exploram frustrações e sucessos, desilusões e conquistas, e pouco resiste a esse abalo.

As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade.

Kónrad desaparece sem qualquer explicação depois de um momento de grande tensão, desvendado em várias partes do livro, deixando Henrik com demasiadas perguntas por responder. Como pode uma amizade com tantos anos terminar tão abruptamente? O que correu mal? Haverá algum sítio possível para alguém escapar de si próprio?

Com amargura e ferido pela atitude do amigo, Henrik isola-se de tudo e de todos, sacrificando uma vida inteira de possibilidades na sombra do que aconteceu. Mais que sentir tristeza ou traição, Henrik tem um desejo de vingança e mergulha nas suas memórias e emoções enquanto ensaia vezes e vezes sem conta o discurso que terá quando revir o amigo. Marcado pela desilusão, desespero e proximidade à loucura que a situação lhe traz, percebemos o impacto gigante que a partida de Kónrad teve na forma como Henrik (sobre)viveu a partir dali.

E essa oportunidade surge quarenta anos depois, quando Kónrad regressa do estrangeiro e é chamado por Henrik à sua casa. É sobretudo esse discurso que lemos neste livro, uma tentativa de forçar lógica no caos emaranhado que Kónrad deixou quando partiu de força abrupta.

Sim, a vingança. Era isso que me mantinha vivo nos tempos da paz e da guerra, durante os últimos quarenta e um anos, e por isso não me matei, não me mataram e não matei ninguém.

Recorrendo a analepses, a um narrador ausente e ao discurso na primeira pessoa, Sándor Márai constrói uma história de forma complexa sem, no entanto, sair de um só sítio. A ação é densa pelo lado emocional e as memórias que carrega, mostrando como tudo o que a história precisa é de personagens carismáticas como esta.

A ação do presente desenrola-se em algumas horas, à luz de velas que vão esmorecendo até se apagarem na totalidade, revelando uma escuridão tão densa fora de casa como dentro das personagens.

Sem dúvida As Velas Ardem até ao Fim foi um dos livros mais marcantes que tive oportunidade de ler até hoje. Um enredo simples à primeira vista marcado pelo discurso de uma só pessoa, mas que explora as emoções mais complexas do ser humano e nos deixas com um nó no estômago pelo rancor que a personagem guarda e que condiciona a sua vida vida até ao fim.


Já leste este livro? Conhecias o autor?