Giovanni’s room

Uma luta interna entre o que se quer e o que a sociedade exige de nós. Esta é uma obra incontornável do século XX, que ousou mostrar como, afinal, o amor é tão simples e complexo em simultâneo para todos nós.

⭐⭐⭐⭐

James Baldwin

Escrito nos anos 50 do século passado, Giovanni’s Room trouxe o retrato de uma relação homossexual numa época em que estes romances eram proibidos. É preciso ler a história à luz da época em que foi escrita e assim percebemos a ousadia e justificamos alguma falta de aprofundamento da relação.

Precisamente pelo caracter condenável da relação à altura da publicação, parece-me que todo o livro é escrito em “pés de lã” e repleto de metáforas que podem passar mais despercebidas ao olhar de leitores acelerados. A história é contada nas entrelinhas, nas emoções à flor da pele e na revolta feita raiva e desprezo das personagens.

Uma história típica, até não o ser mais. O que começa como uma história sobre desgostos de amor revela-se um intrincado ensaio sobre a natureza das relações humanas, a complexidade que as marca e os extremos que os sentimentos podem assumir.

David é o nosso narrador, que se encontra de férias em Paris enquanto espera o regresso da namorada, Hella, que viaja sozinha por Espanha. Nesse hiato, desenvolve ligações tão casuais quanto repletas de tensão com personagens caricatas, de atitudes peculiares e em lugares estranhos.

Não há propriamente um momento onde a sua homossexualidade se declare aberta e diretamente. Há histórias de algo semelhante no passado, outro rapaz amado, mas uma atitude de repudio trouxe o corte e o desprezo – para com a personagem amada e para consigo próprio, rejeitando a sua natureza para agradar os outros. Mesmo a milhares de quilómetros, a sombra do pai paira sobre David, que de nada pode desconfiar e que nos mostra como David vive na dualidade do que ele é e do que se espera que ele seja.

And we got on quite well, really, for the vision I gave my father of my life was exactly the vision in which I myself most desperately needed to believe.

Giovanni surge de forma casual na vida de David, por intermédio de conhecidos em comum – é difícil considerar as relações que a personagem estabelece como amizades: ali imperam sobretudo sentimentos de ciúme, inveja e desprezo, ainda que à superfície se mascarem de sorrisos e cordialidade.

De forma natural, desenvolve-se um romance atribulado entre David e Giovanni que os lança numa espiral de decadência e infortúnio. É muito interessante ver como um sentimento que deveria trazer grande alegria a ambas as personagens não é mais do que uma porta aberta para a infelicidade.

Com a impossibilidade de exporem o seu amor à luz do dia e aos olhos da sociedade, restam-lhes bares duvidosos e o quarto pobre de Giovanni. Como um espelho e metáfora da relação, o quarto não tem mais que bens básicos da vida de Giovanni e encontra-se em péssimo estado. À medida que o tempo passa, o quarto torna-se sufocante para David, à semelhança da relação que vive.

As descrições eróticas ou românticas são praticamente inexistentes, o que ao início torna pouco verosímil a relação. Parece-nos que David não ama, de facto, Giovanni. No entanto, com o avançar da narrativa percebemos como essa falha nos revela precisamente o desequilíbrio que a relação vive e preconiza o seu fim trágico.

Giovanni dá demasiado de si por uma relação que se afigura como bóia de salvação, e quando exige o mesmo de David depara-se com a rejeição constante, um esgar de nojo próprio de quem tenta mascarar as emoções e falha, e ainda as diferenças irreconciliáveis das suas origens e destinos.

O dilema existencial dilacera David por dentro, que se vê preso numa relação sem qualquer futuro com uma pessoa aos seus olhos errática. Por muito que tente dar um sentido ao que vive, há uma aura de desconexão que os assombra, como se nada entre eles fizesse sentido e a “cola” entre ambos nunca fosse suficientemente forte.

‘Somebody’, said Jacques, ‘your father or mine, should have told us that not many people have ever died of love. But multitudes have perished, and are perishing every hour – and in the oddest places!, for the lack of it’

É impossível não sentirmos a dor que David inflige a Giovanni com a sua atitude, enquanto assistimos à corrosão das suas almas e à loucura que os segue. Mas também é difícil não compreender e apoiar David, sabendo que, por um lado, vive uma grande luta interna contra o que sente e que, por outro, há um fim à vista com o regresso da sua noiva.

E é nesse momento que tudo desaba e a linha dramática da narrativa se adensa, concretizando o final trágico que vínhamos antevendo desde o início.

Giovanni’s Room é uma belíssima obra sobre o mais profundo dos nossos sentimentos e sobre a paradoxal distância, tão longe e tão perto, entre o amor e o ódio – que nutrimos pelo outro mas sobretudo por nós mesmos.

As considerações de terceiros teimam em condicionar os caminhos das personagens, que parecem destinadas à desgraça e onde o amor não pode salvar ninguém. Será mais importante corresponder ao que esperam de nós, ou enfrentar tudo e todos na esperança de vivermos como queremos, sabendo que, de qualquer forma, nada ficará bem?