Normal People

Os livros podem puxar-nos para dentro de si ou afastar-nos totalmente, pela apropriação que fazemos das histórias. Para mim, mascararam Normal People como uma narrativa profunda e tocante, mas houve muita coisa a falhar.

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Sally Rooney

Pronto, não funcionou. De todo. Normal People foi uma das leituras mais fracas que tive até hoje, por diversos motivos – da construção de personagens aos diálogos. Houve muito hype em torno desta história e não vi justificação.

Revi amigos, desilusões pessoais, crises existenciais, mas o livro foi só isso, não há grandes momentos de alívio ou do crescimento – como os que vivi e vi viverem. Senti isso desde início, mas dei o benefício da dúvida.

Contudo, o sofrimento é constante ao longo dos anos retratados no livro e isso retirou, para mim, muito da sua carga real. Não consegui identificar os elementos que lhe deram tanta boa fama e críticas tão positivas – e quero acreditar que não é por falta de empatia, posso recomendar-vos bons livros nesta linha narrativa.

Foram erros atrás de erros que as personagens cometeram, numa espiral depressiva que me fez querer entrar na história para bater em Connell e Marianne. Um rapaz “sem sal”, uma rapariga com muitos problemas familiares; o que falta mais?

Não consegui sentir nenhum diálogo como credível. Sabe quando ensaiamos um discurso sério na nossa cabeça e não o chegamos a proferir? Ou quando, depois da conversa, pensamos no que poderíamos ter dito e não conseguimos? Foi essa a sensação que tive o tempo todo, de algo pouco verosímil.

Além disso, a escrita parece quase esquizofrénica. As descrições de momentos de vulnerabilidade, ou de aproximação, valiam por si, mas não encaixavam na narrativa; a escolha de ações que sucediam tornaram tudo anticlimático.

He thinks of her lying on her back. He should have thought about it in the shower, but he was too tired. He needs the WiFi code for this house”.

Acredito que a relação entre Connell e Marianne tenha tocado muita gente, recordando-nos como somos todos falíveis e imperfeitos. Mas, caramba: é um livro inteiro sobre a condição miserável de adolescente e jovem adulto em busca de si e, pior de tudo, de si no outro.

Marianne passa o tempo todo em busca de validação através dos rapazes com quem dorme, submetendo-se a experiências humilhantes e não identificando o problema e o vazio que sente constantemente. E isto toldou toda a minha leitura.

Não consegui ver o lado real nesta história precisamente pelo drama constante que acontece do início ao fim, como se Marianne precisasse de se sentir miserável para viver, mesmo quando as pessoas à volta intervêm para a ajudar.

Senti que quiseram fazer deste livro algo muito profundo, sobre a complexidade das relações humanas e da descoberta do “eu”. Mas a carga filosófica que me fizeram crer que existia não esteve lá, de todo. Foi uma leitura previsível, sem grande surpresa positiva do início ao fim.

Passei o livro todo à espera de uma redenção das personagens, ou mostra de maturidade, mas nunca o demonstraram.

São 2 estrelas porque o livro agarra o leitor e espero que retirem algo da leitura. Mas na verdade só o terminei para poder dar uma opinião mais completa, tendo conhecimento da história completa.