À descoberta de Lola

Como podem os dias passar melhor quando há um nó no estômago a cada instante? A ansiedade constrange Lola, onde as dúvidas, o desconforto e a incerteza conduzem a sua vida. Mas é possível abraçar e seguir em frente, como nos ensina a personagem.

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Cátia Vieira

Na sua estreia literária, Cátia traz-nos as angústias com que tantos de nós se identificam. Pela semelhança com a realidade e por não ser o arquétipo que muitos procuram, a personagem principal (Lola) causa algum desconforto no leitor e suscita muitas opiniões distintas.

Este livro foi lido numa leitura conjunta, iniciativa trimestral que promovo no Instagram Joana dos Livros. Vem fazer parte da próxima! Segue-me por lá e fica com atenção às novidades.

Avançar entre a angústia

A ansiedade é o tema central de Lola e que acompanha de início ao fim a história da personagem principal.

Como se consegue viver quando se tem um nó no peito e na barriga? Quando o desconforto constrange todos os aspetos de convivência com os outros? Quando implanta questões a cada passo e nos mantém acordados à noite?

Os anos da juventude podem ser tão libertadores quanto desesperantes, sobretudo quando há um burburinho constante dentro da cabeça. Uma voz que nos faz duvidar de nós mesmos, de quem somos, para onde vamos, o que estamos a construir, quem queremos ser…

No final dos seus 20 anos, Lola debate-se com questões existenciais sobre o seu futuro e sobrevive à ansiedade que essas lhe causam. Uma relação conturbada com os pais, as contas para pagar, uma investigação de faculdade que adia constantemente, o desconforto em ambientes sociais, uma colega de casa que se distancia nos seus próprios problemas.

E mesmo quando as intenções são as melhores, o manto da ansiedade recai invisível mas pesado sobre atitudes, conversas e momentos. Portanto, o que estava mal, mal continua.

Enredo cativante

Foi sobretudo a identificação com as dúvidas e sintomas de ansiedade de Lola que me cativaram tanto durante a leitura.

Avancei a bom ritmo entre as páginas, porque há sempre algo a acontecer e queria muito saber como se resolveriam os pequenos nós criados na intriga. Como vai Lola superar a sua ansiedade? Será que a mudança para uma nova cidade é a página em branco que tanto precisa? Onde encontrará as respostas que procura?

De câmara analógica na mão (outro ponto com o qual me identifico), vagueando entre ruas, rostos e momentos, Lola descobre-se e afirma a sua personalidade, vontades e desejos. Há uma força crescente e muito feminista ao longo da narrativa, que empodera todas as mulheres na libertação face a convenções e expetativas sociais – o que contribuiu para o meu interesse na leitura.

Além disto, a Cátia revela desde já uma forma de escrita que me cativa e absorve ao utilizar expressões e vocabulário cuidados. Há uma poesia subjacente a livros bem escritos, onde o tipo de linguagem encaixa perfeitamente nas situações onde as personagens mergulham e isso é de louvar em Lola.

Pequenos apontamentos

Ao longo do livro, houve diferentes temas que a autora tentou abordar. No entanto, e sobretudo a partir do último terço do livro, senti que as situações foram apressadas ou algo forçadas a entrar na narrativa.

Certos tópicos, lançados ao início, não fora abordados como esperava, outros tiveram uma resolução que considero apressada. Atenção: trata-se de expetativas e aí o escritor não pode agradar a gregos e a troianos, mas antes fazer o heróico esforço de se equilibrar entre uns e outros enquanto encontra a sua voz.

Ressalvo novamente que este é o primeiro livro da autora e que nos deixa aqui grandes promessas para o seu próximo trabalho. Os temas são bastante pertinentes e será muito interessante acompanhar a evolução e consolidação de uma jovem autora.


Se sofres com ansiedade ou estás a passar por um momento menos bom, procura ajuda profissional. Não deixes a tua saúde mental para segundo plano.