Boas surpresas e algumas desilusões: as leituras de 2021

Terminei o ano muito perto da minha meta de leitura, o que me deixa contente sobretudo porque isto significa mais autores, mais histórias e mais aprendizagens. Entre excelentes descobertas literárias e livros que não viveram além do hype inicial, fica a conhecer todos os livros que li este ano e os que destaco – pelo bom e pelo mau.

Um ano recheado de livros

A meta do #readingchallenge para este ano era de 50 livros (15 livros a mais que o ano passado). Não cheguei lá – e não faz mal nenhum, já dizia o mundo inteiro que o que conta é a qualidade – mas fiquei perto: 46 livros vivem para sempre em mim, com as suas personagens, narrativas singulares, histórias verídicas e muitos ensinamentos.

Claro que para chegar a este número de leituras o muito contribuíram todas as partilhas no clube Livros Mil: há sempre tantas e tão boas sugestões de leitura, que só ganhamos em fazer parte de grupos como este.

Todas as minhas leituras de 2022

  • As Velas Ardem até ao Fim, Sandor Marai
  • Torto Arado, Itamar Vieira Junior
  • 1984, George Orwell
  • Men Who Hate Women, Laura Bates
  • Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie
  • A Avó e a Neve Russa, João Reis
  • A História Secreta, Donna Tart
  • Coaching, Maggie João
  • O Jogo Infinito, Simon Sinek
  • The Workshopper Playbook, Jonathan Courteney
  • Fahrenheit 451, Ray Bradbury
  • Vai Onde te Leva o Coração, Susanna Tamaro
  • Organize Tomorrow Today, Jason Selk
  • Contra Mim, Valter Hugo Mãe
  • Delta of Venus, Anais Nin
  • Hábitos Atómicos, James Clear

  • Mulheres Invisíveis, Caroline Criado Perez
  • Sobreviventes, Alex Schulman
  • Autópsia, João Nuno Azambuja
  • História de Quem Vai e de Quem Fica, Elena Ferrante
  • Bonjour Tristesse, Françoise Sagan
  • Lola, Cátia Vieira
  • Aparição, Vergílio Ferreira
  • Sensibilidade e Bom Senso, Jane Austen
  • A Mulher do Roupão de Seda, João Bernardo Soares
  • Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami
  • História da Menina Perdida, Elena Ferrante
  • A Casa dos Espíritos, Isabel Allende
  • Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins-Reed
  • As Impertinências do Cupido, Ana Gil Campos
  • A Boneca de Kokoschka, Afonso Cruz

Dos memoráveis aos papéis de rascunho

Nem todas as leituras são vividas da mesma forma por todos os leitores – e é isso mesmo que tanto nos cativa, as infinitas experiências que cada livro traz a diferentes pessoas, num mundo de possibilidades sem limites nem barreiras.

Em 2021 descobri fantásticas histórias, outras tantas que passaram sem deixar marca e também algumas que acabaram por me desiludir. Mas tudo conta para nos enriquecer e alargar os nossos horizontes literários.

As 3 melhores leituras

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante

Uma das histórias mais marcantes que já li e que, meses (e anos) depois, continua tão vívida na memória – prova, para mim, de uma mestria que reconheço em poucos dos escritores que já pude descobrir.

Este é o volume final na história de Lenú e Lila, traçada desde início por um fado estranho e que aqui ganha uma dimensão ainda mais dramática. Tudo o que aprendemos sobre as personagens fica cada vez mais real e mais profundo. Se por um lado a vida adulta lhes traz a sensação de liberdade para tudo decidirem, revolucionando por completo o que foi construído, por outro parece haver constantemente uma mão do destino que teima em não desaparecer.

Devo deixar uma nota especial à tradutora Margarida Periquito, cujo trabalho incrível neste livro tanto contribui para que a leitura nos marque. Do italiano cuidado ao dialeto napolitano, pouco ou nada se perde, e há uma poesia inerente à linguagem e frases tão bem construídas em português.

Men Who Hate Women, de Laura Bates

Não, não é o livro da saga Millenium. A leitura com que terminei 2021 foi muito pouco animadora – e ainda assim tão necessária. Este foi um dos livros que mais me custou ler, com verdades difíceis de processar e uma sensação constante de “que treta de mundo este em que vivemos”.

Men Who Hate Women é um livro de não ficção onde a ativista e feminista Laura Bates coloca a sua investigação sobre os grupos de homens que, no mundo real, odeiam as mulheres e representam verdadeiras ameaças – para elas, para eles e para si próprios.

De comunidades online, a grupos escondidos na deep web, passando por homicidas e terroristas, e sem esquecer vítimas de exploração, este é um livro que todos deveriam ler para conhecer mais sobre as ameaças não tão fantasma assim que pairam diariamente sobre a vida de todas as pessoas que se identificam com o género feminino. Porque só através da educação para estas realidades poderemos continuar a alertar e construir um mundo mais seguro e igualitário.

livro men who hate women

The Blind Assassin, de Margaret Atwood (O Assassino Cego)

São 800 páginas de uma história aparentemente banal, mas que escrita com uma mestria tal que me cativou de início ao fim.

Enquanto História de uma Serva, da mesma autora, nos deixa inquietos pela narrativa, com um cenário assustador e atrocidades cometidas, The Blind Assassin mantém-nos presos à leitura pela construção da narrativa, do suspense que a conduz e das revelações ao ritmo certo, na dose certa. Do início ao fim.

As 3 piores leituras

Delta of Venus, de Anais Nin (Delta de Vénus)

Fiquei a meio deste livro de contos e não sei quando vou retomar… Este marco da literatura erótica desiludiu-me bastante pelo ponto de vista a partir dos quais os contos (que li) são narrados.

É preciso entender, contudo, que os contos aqui compilados foram “encomendados” por um barão, pedido esse feito a outros autores também para uma revista erótica masculina. Tal com a autora conta, este acabam por ser contos redutores da sexualidade feminina, algo contra o qual Nin tanto batalhou na escrita original mas acabava irremediavelmente alterado por vontade do mecenas.

Esperava contos irreverentes, sobretudo para a altura em que foram lançados, mas além dos artifícios de escrita de Nin não consigo encontrar qualquer prazer na sua leitura. Contos centrados no prazer masculino, a mulher como mero objeto à mercê das fantasias do homem. Fantasias que angustiam, posturas abusadoras e desvalorização da mulher? Não, obrigada.

Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto

Outra desilusão – as expetativas, sempre as expetativas…

A escrita de José Luís Peixoto tem uma poesia inerente que nos cativa, transformando qualquer prosa numa narrativa singular e muito cuidada. Mas infelizmente esse foi o único ponto positivo nesta leitura, onde o autor explora em excesso sempre as mesmas memórias de Rui Nabeiro numa espécie de biografia.

Digo espécie porque senti falta de muito mais história de uma figura tão relevante em Portugal como o Comendador Nabeiro. O livro foi lançado a propósito do seu 90º aniversário e acabou por se centrar em muitos poucos momentos da sua vida. Terminei a leitura com a sensação de uma bonita escrita, mas narrativa vazia.

livro almoço de domingo

Os 7 Maridos de Evelyn Hugo, de Taylor Jenkins-Reed

Li e vendi, meus caros. Não viveu para além do hype que vi inicialmente… acho que está sobre valorizado, embora nos traga maior diversidade racial e sexual através das personagens.

Por um lado, fico feliz por ver maior representatividade nesta narrativa moderna mas, ao mesmo tempo, sinto que foi uma leitura que pouco ou nada me “ensinou” ou fez refletir. Foi cativante: enquanto lia, sentia que estava a ver episódios de uma série, com cliff hangers entre capítulos e a sensação constante de “e o que acontece depois?!”, mas terminada a leitura pouco ressoou.

Ainda assim, aconselho a leitura se procuram algo mais “leve” (ainda que seja um livro de 600 páginas) ou que vos dê vontade de não parar de ler.

O que vem aí?

O ano ainda agora começou e com ele tantas novas possibilidades de leitura! Mantenho a meta de 50 livros para o que gostaria de descobrir em 2022, sobretudo pelo desafio de conhecer mais obras e autores

Não faço grandes planos do que ler, além dos temas no Clube Livros Mil, mas mantenho o compromisso com a compra consciente e em pequenas livrarias, com a requisição de livros pela biblioteca e com a leitura de tudo o que ainda tenho pelas estantes em casa.

Continuem a acompanhar as minhas viagens literárias aqui pelo blog e no instagram. Espero que 2022 vos traga também ótimas leituras! E se tiveres alguma sugestão do que devo mesmo ler este ano, deixa em baixo nos comentários para eu descobrir.