Um ano a aprender piano: lições valiosas para tudo

Em abril de 2021, decidi aprender a tocar piano. Perto do meu coração pelos 12 anos em que dancei ballet clássico, a música especial do piano levou-me a escolhê-lo como instrumento predileto. Mas tudo o que tenho vindo a aprender com esta escolha estende-se a muito mais do que poderia pensar.

Um dia acordei e pensei: “não sei tocar música”

Foi mesmo assim que aconteceu. Bom, não foi reflexão de um dia único, claro. A ideia de que não sabia tocar qualquer instrumento – a maldita flauta de Bisel do ensino básico não conta – perseguia-me há um tempo, sobretudo porque a música está sempre tão presente no meu dia a dia.

Dancei ballet clássico por muitos anos (e costumo dizer que seria a carreira numa vida paralela). Trabalho sempre com música de fundo. Gosto de assistir a concertos (q.b., a paciência de idosa para as horas intermináveis numa fila não permite muito). Com outro artista musical em casa não há dia nenhum que não soem notas de um canto ou outro.

Escolher o piano acabou por ser uma decisão muito natural neste caminho de querer aprender a tocar algo. Em abril de 2021, ainda em pandemia, encontrei uma professora do outro lado do oceano atlântico e tem sido fantástico desenvolver este lado musical enquanto adulta com alguém que estuda o piano desde muito pequena – e que ainda assim continua a ser mais nova que eu.

Se foi incrível aprender a ler partituras? Sim. Se tem sido maravilhoso que as valsas de Chopin que eu dancei agora saiam na ponta dos meus dedos? Claro. Se tem sido muito mais que tocar música? Absolutamente, 100% correto.

4 lições que aprendi com o piano

Tudo requer dedicação

Estes truques rápidos que nos querem vender para aprender algo, mudar algo ou perder algo são men-ti-ra (acompanha com uma palma por cada sílaba, só para ser mais assertiva).

Pensem: se fosse assim tão aprender a tocar um instrumento, não seríamos todos prodígios com concertos esgotados na Opera de Sydney?

Com a aprendizagem do piano tornou-se muito óbvia esta velha máxima de praticar com regularidade para conseguir evoluir.

Uma semana sem ensaiar sequer as escalas musicais representa um retrocesso gigante – sobretudo quando nos estamos a iniciar. No fim, será a determinação e a dedicação que maior diferença fazem.

E sim: mais vale praticar 30 minutos todos os dias do que 4 horas num dia apenas. A repetição constante ajuda também a criar o hábito da prática regular, o que, em conjunto com as melhorias que vamos notando (mesmo que lentamente) é uma motivação maior.

O perfeito é mesmo inimigo do bom

Sempre fui a pessoa que quase se recusa a aparecer se não levar o fato tal e qual tinha pensado. Mas é preciso aceitar que, muitas vezes, nem em três vidas ele estaria perfeito.

E aqui reside uma das lições mais importantes que o piano me trouxe: o que importa é fazer.

Muitas vezes detemo-nos por receio de que o resultado final não esteja como queremos (e o que vão pensar de nós se mostrarmos algo assim, inacabado). Mas será melhor mostrar algo imperfeito que não mostrar rigorosamente nada.

Entre ser a pessoa que faz e aprende com o que estiver errado e ser a pessoa que nada faz porque ficou presa nos seus receios e expetativas, a escolha parece-me cada vez mais óbvia.

Fazer algo só porque sim

Estive a “isto” de desistir do recital de Natal que a professora organizou com todos os seus alunos de piano. Como poderia aparecer e tocar o maldito minueto de Bach em fá, que teimava em não sair bem de início ao fim?

Depois, lembrei-me: ninguém espera nada de mim no piano. Estou aqui para me divertir e esta ansiedade corrompe essa missão.

Tenho aprendido a desligar-me de um lado de produtividade louca que sempre fez parte de mim. Aquele lado que me diz que tudo tem de ser feito com um propósito de obter algo em troca – reconhecimento, sobretudo.

Mas é preciso relaxar, não levar tudo tão a sério, deixar altas expetativas de parte.

Há algo muito importante a aprender com os nossos tempos livres: é que isso mesmo que eles são, livres. E o que escolhermos fazer aí deverá servir para nos libertar de tudo o que já nos pressiona em tempos ocupados.

De nada valem as comparações

Chegando a esta parte nas minhas reflexões pianísticas, já compreendeste que o piano está a ser um hobby que me desafia a desconstruir-me, na sua construção.

Por isso mesmo, algo em que tenho trabalho é a comparação que faço entre outros pianistas que sigo – uns profissionais, outros nem por isso (como eu). Ajuda muito recordar que o objetivo das aulas e desta aprendizagem é divertir-me enquanto ganho mais conhecimento musical.

A leveza que esse descontração me traz permite-me continuar a fazer este caminho sem fazer grandes comparações, mas antes aproveitar para analisar a forma como essas pessoas tocam, se sentam, estudam as peças… e aprender muito mais com elas.

Qualquer momento é bom para nos desafiarmos e descobrirmos algo novo, crescendo enquanto nos divertimos. O piano é isso mesmo para mim e tudo o que aprendo no seu estudo se transporta para outros aspetos do dia a dia.

Por um lado, vivo o desafio de aprender algo completamente fora da zona de conforto. Por outro, este é o lembrete constante de que devo levar a sua prática com leveza e lazer. Não tenho qualquer ambição de praticar profissionalmente, entrar num conservatório, tocar na orquestra local. Então mais vale divertir-me, certo?

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