Não me lembro bem de quem era antes de começar a escrever. Sentada numa mesa azul e no tempo em que existiam quadros a giz e o almoço era ovos com salsichas, “quando vamos aprender a escrever, professora?” é capaz de ter sido uma das perguntas mais excitantes que fiz até aos meus actuais vinte e cinco anos.

Assim, nasceu também o gosto pela leitura. Todos os anos repito que não lerei os livros novos da estante antes de terminar os outros que viajam, constantemente, entre Évora e Lisboa e que choram baixinho ao ouvir pela centésima vez “vou acabar este”. Parei Ensaio Sobre a Cegueira para começar Heidi. Entretanto, o Ensaio terminou e a menina espera ansiosamente pela primavera naquelas montanhas. Provavelmente, fui uma criança chata no jogo do stop por causa das leituras – desculpa, mana.

A melhor parte da adolescência – sim, é verdade! – foi ter encontrado pessoas que eram ainda mais chatas do que eu neste tipo de jogos. Isso e descobrir maravilhas pelo olho de uma câmara fotográfica, ora digital ora analógica.

Gosto bastante de ver filmes, mas devo ter um (grave) problema de memória porque me esqueço da maioria dos seus finais, por mais arrebatadores que sejam. Não sei nomes manhosos de diretores nem vi muitos dos “clássicos”. Gosto de Hitchcock, mas também só vi quatro dos seus filmes. Adoro ouvir música, não faço playlists e oiço tudo sempre em shuffle – rebelde, eu.

Tive a sorte de encontrar a primeira paixão da minha vida aos oito anos: na sua elegância e no seu esplendor, o ballet clássico – porque no que toca a outros tipos de dança, parecerei sempre um idoso solitário demasiado bebido num casamento a dançar música pimba. Descobri o Yoga aos 19 e não parei mais; cruzei-me com esta filosofia de vida no momento certo e, agora, estou até a estudar para um dia poder transmiti-la a quem se abra para a receber.

Embora seja a mais velha de duas irmãs, nunca ninguém acha isso. Não sei se é de ter menos cinco centímetros que a Eva ou gostar de usar vestidos floridos. Seja como for, quando perguntamos se somos parecidas é como estar no Preço Certo: às vezes temos semelhanças, outras somos bem diferentes e, em casos de eclipse ou equinócio, acham que somos gémeas.

Posso dizer que sou uma pessoa desenrascada e pacífica – tanto que, quando peguei fogo a um caixote do lixo no dia do meu 20º aniversário, foi sem querer. Normalmente, estou de bom humor, a menos que esteja cansada, ou com sono ou com fome – juntem-nos e é a tríade que mata as férias em família.

Sei muitas coisas, a maioria aleatórias e sem grande utilidade, mas nunca estou satisfeita e aproveito cada buraquinho na agenda para aprender algo novo – música, línguas estrangeira, complicados asanas, compreensão do feminino, receitas culinárias, marketing e gestão, filosofia e espiritualidade.

Até agora, aprendi a dar o máximo do meu metro e cinquenta e cinco aldrabado pela máquina no cartão de cidadão. Também aprendi a gostar mais de pessoas, de salmão e da praia. E vou de trotinete (elétrica) a muitos sítios.

Aqui, reúno e cruzo as coisas que mais gosto com o humor a que habituei quem me rodeia. Não sei ser de outra maneira – nem me interessa isso.

Se gostarem, continuem a aparecer por estes lados.

E chamo-me Joana porque o meu pai é João.

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